Projeto Destruição, Filial Lisboa

A lista de marcação rápida de um telemóvel é um bem precioso. Usa-a bem. Nós no projeto destruição, filial Lisboa, damos um excelente uso à mesma. Conheces o Tyler Durden? Eu também não, mas o homem é um profeta do fim deste modo de viver e mandou homens e mulheres tresloucadamente perdidos lutar até ao sangue escorrer. Aos que sobreviveram ao clube de combate mandou-os ir mais longe. Este é o projeto destruição, a grande sinfonia global do caos. Foi transferida em banda larga e agora, voilá, estamos aqui sentados, o grupo central, o politburgo do napalm que vai inundar a Baixa. Dizia eu que nós, os fundadores da filial, estamos aqui sentadinhos a comer um pastel em Belém. Pertinho de ti. Talvez até moremos perto, sejamos colegas, adeptos do mesmo clube, sócios do mesmo ginásio. Talvez o teu caminho esteja tracejado para terminar num infeliz cruzamento com um dos nossos eventos de violência extrema.
Falávamos da lista de marcação rápida. Tenta identificar-te com a minha, se não o conseguires quer dizer que és uma das nossas potenciais vítimas. Nunca serás um soldado do projeto. Não tens suficiente desamor à vida.
Tecla um – Um bom traficante de cocaína
Tecla dois – Um bom traficante de anfetaminas
Teclas Três a Cinco, contactos relacionados com armas. De fogo e brancas, químicos, elementos elétricos que permitirão acionar mecanismos de detonação. Sabes mandar alguma coisa de grande pelos ares? És bem-vindo.
Seis e Sete – Os pais a que nunca ligas. Estão lá apenas para te recordar que agora só ao nosso projeto pertences
Oito – Alguém do grupo operacional.
Nove – Aquela ou aquele que o grupo designou como teu aliviador sexual. O soldado do projeto destruição deve estar bem motivado. As teclas um, dois e nove servem para isso. Aproveita-as. Não se vive muito na operacionalidade.
O zero sabes bem para que serve. Por motivos de seguranças combinamos a sequência com o cardinal. Sabes o que tens a fazer se fizeres merda. Cardinal, zero e depois , rapidamente, deves colocar o telefone na boca. Em cerca de dez segundos o explosivo acondicionado junto à bateria eclodirá perfurando o céu-da-boca, derramando a quantidade suficiente de cérebro, a garantia que o teu falhanço como membro do projeto destruição não se repetirá.
Mordo o meu pastel com delícia. Frente a mim está ela, Maria. Não é bela, não é jovem, é apenas uma desiludida da vida que dentro de dois dias carregará uma carga amarrada a si mesma. A gare do oriente é o local designado para se tornar mais uma mártir de uma causa que não pretende escrever história. Apenas anarquia. Apenas o grito das massas, cada vez mais inquietas, cada vez mais tensas. Entre elas, talvez tu, haverá aqueles que entenderão a nossa mensagem. Esses largarão tudo, cagarão em toda a extensão das suas vidinhas monótonas feitas de vulgaridades a preços módicos e prestações. Esses serão mais corpos prestes ao extermínio, próprio e alheio, que engrossarão as fileiras do projeto. A Maria está a comer o seu último pastel e nada em si revela temor. Está tão farta da vida, tão saturada, cansada, gasta de não ser nada, de ser apenas ela e o mundo que nada quer com ela que até parece grata de ir morrer com algum sentido. O nosso sentido. Só o entenderás quando fores um de nós.
Ponho um pouco mais de canela. Canela é a pele da mulher bela que caminha junto à porta principal das torres das amoreiras. É linda como o mundo e daqui a pouco será coberta por uma enorme sombra. Segundos depois perecerá perante os escombros. O avião privado que embaterá nas espelhadas construções do famoso arquiteto não provocará a queda dos edifícios. Não ireis correr na grande maratona do pânico em direção ao marquês . Contudo morrerá gente;calculo que cerca de cinquenta nos escritórios e quinze a vinte transeuntes. A ideia foi de Pedro, o homem que pilotava a aeronave. Disse que queria acabar numa bonita bola de fogo. Há pilotos no nosso projeto, ensinaram-no a pilotar. Há muita gente que faz muita coisa no projeto destruição. Os homens das minas e armadilhas equiparam o Cessna. Ordenei ao comando que açambarcou a aeronave que o modelo fosse exatamente igual aquele onde morrera o primeiro-ministro pequenote. Um tiro emocional que amplie o horror nas massas politicamente mais à direita; para a esquerda reservámos uma surpresa para a sua festa da margem sul. Esta é a nossa noção de alternância democrática.
O projeto destruição funciona assim.
Todos são alvos, não há redenção, temos músculos para espancar, temos dinheiro para comprar equipamento e armamento. O sucesso para ti é luzir como um deus grego pleno de ética empresarial, consciência cívica e ecologista. Reciclas, também nós. Somos apenas mais extremos. Para nós o topo de carreira atinge-se quando chamamos por irmão o cê quatro.
Na minha lista de marcação rápida marco dois. Preciso de speeds , há muita coisa a acontecer. Hoje as amoreiras, depois de amanha o terminal ferroviário. O comité encara Maria e, na tradição que Tyler Durden nos deixou, deixamos que a próxima a expiar selecione o alvo seguinte. O dever do comité é, a partir do momento em que o desejo seja efetivamente anunciado, iniciar o recrutamento que leve ao sucesso da missão. Maria reflete. Os olhos que só conheciam até há uns meses a cor das novelas lançam o grande ódio de uma vida acumulada de vazio, não conseguiu o sucesso, redime-se no ódio pelo próximo. Diz:
– Os lagartos vão jogar à luz dentro de duas semanas.
Alguém do conselho se opõe à óbvia cor clubística de Maria:
– E vamos espezinhar os lampiões.
Uso a voz de presidente da mesa. Faço-o porque sou o fundador do clube de combate e, posteriormente, da filial lisboeta do projeto destruição. Fui que fundei o primeiro ringue dos insanos numa cave da Brandoa, fui eu que esmaguei sobre os meus punhos os maxilares do meu amigo, fiz nascer o sangue que batizou a terra lusa com esta forma zangada de respirar. O meu pastel de nata estava ótimo:
– Todos morrerão.
As cabeças anuem em concordância com a minha palavra onde invoquei a tradição inicial que Tyler Durden nos deixou.
Dentadas estaladiças na massa folhada da segunda rodada de pastelinhos assinam a sentença do clássico dos clássicos.

Nota do Autor : Texto inspirado na obra “Clube de Combate” de Chuck Palahniuk (ISBN: 978972461821).
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5 thoughts on “Projeto Destruição, Filial Lisboa

  1. Ola Marco.
    Quando estava a meio lembrei-me do “Clube de Combate”.
    Transmite aquela sensaçao de que o Mundo está a acabar mesmo ao nosso lado e que ninguém se apercebe. Gosto muito!
    BJS

    1. Catarina

      “Projecto Destruição – Filial Lisboa” é 100% inspirado na obra Clube de Combate. Sou um incondicional fã do autor
      Obrigado pelo comentário
      Marco

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