Madrid , 2010 (Apontamento sobre o desencanto de um povo )

Passam por mim na longa avenida onde as montras das lojas parecem ter perdido o brilho de outrora. Olhos ávidos de comprar cravam-se, obstinadamente, no cimento do passeio por onde (passos que se arrastam , caminhos de desencanto ) passeiam a sua impotência consumista. Conto.

Um ,
Dois ,
Três,
Quatro,
Cinco.
Este está desempregado
Um,
Dois,
Três,
Quatro,
Cinco.

A mulher com excesso de peso e pálpebras enegrecidas de nada esperar do amanhã lança um olhar de ódio à negra , estranha, estrangeira , que limpa as escadas de um prédio. No crispar dos seus lábios lê-se a palavra “fora”. Na raiva do punho que se fecha na alça de um saco de plástico onde habitam parcas mercearias entende-se a inveja à esfregona empunhada por quinhentos euros mensais.

Prossigo a marcha, continuo a contagem , a enumeração fantasiada nos rostos de estranhos, os vinte por cento que vagueiam por terras iberas sem trabalho. Um , dois ( o homem da gabardina suja evidencia, para lá da sua barba de sete dias, que a desonra já causou danos para lá do recuperável ), quatro , cinco…
Uma criança. Esta não pode estar na estatística. Todavia o puxão impaciente da mãe , o aperto da bolsa contra o peito diz à menina do rosto trigueiro que é mais uma boca para alimentar. Um sopro de impaciência , um desejo que as tranças nunca tivessem conhecido a luz de Madrid , que se tivesse ficado , cataplasma de sémen num preservativo , óvulo não fecundado em manipulação química.

Ao fundo, Atocha.
Os sons da memória dos mortos de Março desvaneceram-se , já não há flores no chão, a chama das velas há muito que foi trocada pelo grito do ardina :
-Periódico , Periódico.
Dos comboios suburbanos desaprendidos da sua lotação máxima saem figuras curvadas. Braços hesitantes estendem uma moeda ,agora preciosa, ao homem dos jornais. Mãos , trémulas, apressadas na procura da secção do trabalho , parca ilusão de meras páginas. Em contrapartida é extenso o rol de homens , mulheres , casais (quiçá em tempos felizes ) que atendem cavalheiros e tudo fazem por uma nota de cinquenta.

Nas narinas já não emana a tremenda recordação daquela manhã de vésperas de primavera , os odores da carne queimada e da pólvora foram substituídos pelo pivete dos corpos pouco higienizados que se apressam para as longas filas dos gabinetes de segurança social. Nos olhos congestionados que flutuam ,alheios; sobre o corpo emagrecido da fome ,iludida pelo aspirar da poluição da urbe , escreve-se a razão do esquecimento dos cadáveres. Para eles , foi rápido . Para eles , uma nação chorou. Para eles , houve a glória dos mártires .
Para os vivos de hoje apenas a vergonha , a vergonha.

Anúncios

One thought on “Madrid , 2010 (Apontamento sobre o desencanto de um povo )

  1. Para os vivos a morte lenta e, nela, uma agonia que se vai pagando caro. E talvez o que mais agonie seja a impressão de este apontamento pular as fronteiras de tempo e espaço a que está associado, na medida em que, para lá do contexto, está a essência para a qual o apontamento parece querer dirigir-se. (Quer ou é-lhe inevitável?). Muito ao teu estilo, Marco, porque bem “carregado de humano”.

    Abraço
    Ana

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s