Requiem em Pó Maior

Os vultos lúgubres e andrajosos que vagueavam em redor da barraca agitaram-se momentaneamente iluminados pelos faróis que anunciavam a chegada do potente carro desportivo. Os largos pneus respingaram um pouco mais de lama e água para as já imundas vestes; esse facto não pareceu incomodar sobremaneira os drogados. Um deles, provavelmente menos acostumado com as regras do local, emitiu um sonoro -“Eehhh! Ganda Bomba!!”- que tanto podia ser dirigido ao resplandecente Porsche Carrera GT como ao metro e setenta e cinco pleno de pernas e curvas que saiu do lugar do pendura. Tal atrevimento foi, de imediato, censurado por um dos dois homens de aspeto mais sóbrio e limpo que se encontravam junto à porta do casebre:
– Atina-te pá . São clientes – A “shotgun” que empunhava era um argumento de peso e o trémulo e pálido ser que profira o impropério efetuou uma estratégica retirada por uma ruela mal iluminada donde provinha um intenso odor a urina.
De dentro do Porsche surgiu a figura do condutor. Tal como a elegante máquina destoava sobremaneira com toda a ambiência do local. O “blazer” de botões dourados, a imaculada camisa de caro linho, as calças cremes e os inevitáveis mocassins indicavam que não era fauna residente do bairro de consumo. Um azul no olhar, farta cabeleira loura moldada no formato dos “playboys” da Quinta da Marinha; o rosto espelhava a condição social, a arrogância da perceção da mesma e uma imensa, quase irrefreável, vontade de chafurdar as abastadas narinas no produto de altíssima qualidade que ali, no Zé da Neve , se transacionava.
– Madalena , Mexa-se mais depressa por favor – A ordem emitida por Bernardo ignorava a dificuldade da sua anoréxica companheira em equilibrar os saltos na camada de lama , chuva e mijo que cobria o acesso à barraca. Um dos porteiros encarou o casal toxicodependente de classe alta e cedeu passagem. O abrir da porta foi acompanhado por um olhar guloso, ao qual se juntou o do seu companheiro de canos serrados, que apreciava o bambolear apressado e o fio dental exposto pela transparência do curto vestido negro que Madalena envergava.
No interior uma amálgama de alta tecnologia doméstica, mantas da feira de Carcavelos, sofás de luxo , iluminações decorativas de loja chinesa. Sobre a mesa baixa um largo espelho onde se erguia um pequeno Evereste “made in Colômbia” ; na parede um nicho albergava uma imagem de Nossa Senhora de Fátima . Ocultos pelas sombras, em dois cantos da divisão, mais dois homens de aspeto duro , armas de alto calibre nos coldres de sovaco. No centro da sala, imponente no seu cadeirão, estava o traficante. Zé da Neve; olhos verdes ciganos cercados por uma alva cabeleira. Branca também era a espessa barba que cobria a quase totalidade do rosto ocultando os lábios e as cesuras de lutas passadas. Em contraste, o negro era a cor única de toda a indumentaria do vendedor de estupefacientes. Uma vez, um outro cliente, perguntara se tal negrume era cor de luto. Suspirando, o “dealer “ entregara a meia grama e clarificara:
– Um cigano está sempre de luto.
Zé da Neve apresentava um ar profundamente tranquilo. O cintilar e a vivacidade dos seus olhos , o tom de pele sadio eram provas irrefutáveis de que não consumia os produtos que traficava. Perante a chegada do distinto casal estendeu o braço, onde pendia uma grossa pulseira do mais puro ouro e um reluzente e falso “Rolex” , e convidou:
– Minha senhora , faça o favor de se sentar na modesta casa do Zé – acompanhou ,com um olhar divertido ,o movimento e a quase chegada à cintura da curta saia que envergava Madalena; posteriormente dirigiu-se a Bernardo – O amigo sente-se também. Então o que é que vai ser hoje?
Um risinho nervoso saiu dos lábios carnudos de Madalena acompanhado por um esbugalhar dos enormes e necessitados olhos castanhos. Zé da Neve pressentiu negociata da grande e imediatamente empurrou em direção da bela mulher uma generosa linha que ele próprio separou do imenso monte de cocaína. Acendeu um dos ecrãs de plasma e ,com um gesto rude do comando remoto ,apontou a Madalena para onde devia focar a sua atenção. Fazia negócios com homens , neste caso com Bernardo ,que sentado na poltrona à sua direita não cessava de se agitar sobre o cabedal castanho. Era óbvio o seu estado inquieto, Zé da Neve não apreciava pressas e espicaçou:
– Então amigo? Parece que o sofá até tem agulhas. Olhe que é Divani e Divani , quase de certeza igualzinho aos que tem lá em casa dos seus paizinhos – emitiu uma gargalhada batendo com força no braço do cadeirão que ocupava – Estes também vieram de Cascais. Mas não foi do Shopping .
A graçola foi acompanhada pelo grasnar dos capangas do Zé da Neve. Um olhar mais áspero do cigano trouxe de novo o silêncio à divisão. Insistiu:
– Então amigo? Quantas graminhas são hoje? As quatro do costume? ou hoje há festa ?
Bernardo esfregou as palmas das mãos para desvanecer a fina camada de suor que as cobria e pigarreou o discurso :
– Oiça, Zé , hoje preciso de trinta gramas – um breve silêncio foi acompanhado por um arrebitar das hirsutas sobrancelhas do traficante – Sabe vou dar uma festa giríssima a bordo do iate do meu pai e quero ter a certeza absoluta que toda a gente se vai divertir imenso. Acha que tem tanto produto ?
Uma gargalhada monstruosa fez Bernardo saltar e o olhar de Madalena desviar-se do desfile de moda na TV. Quando conseguiu conter o riso e as lágrimas Zé da Neve respondeu:
– Amigo , aqui o Zé só se preocupa quando lhe pedem quilos – tentou compor-se mas o riso persistia – trinta gramas vende a gente aqui em duas horas. Mas diga-me lá uma coisa – a gargalhada deu lugar a um olhar gélido de agiota – o amigo tem dinheiro para isso tudo? Trinta gramas são dois mil e cem euros . Bem contados e em dinheiro que aqui o seu Visa não serve de nada .
Bernardo levou a mão ao bolso interior do paletó e retirou um envelope volumoso. Com gestos de desprezo contou as notas e atirou-as para cima da mesa:
– Você acha o quê? Eu não sou um desses drogados que vem para aqui lhe pedir fiado – levantou o queixo num tom desafiador – Sou de outra estripe, entende?
A arrogância de Bernardo não teve o efeito que normalmente tinha em empregados de restaurante e empregadas de “boutique”. Zé da Neve fixou os seus olhos esmeralda no jovem bem vestido e retorquiu:
– Amigo , está irritado, não faça isso é mau para a saúde – lentamente debruçou-se mais uma vez sobre o monte de coca e oferendou uma linha dupla que Bernardo aspirou com sofreguidão – Não leve a mal mas é muito dinheiro . Então é para uma festa? Grandes festas devem ser essas. Um dia destes o amigo convida-me
O ardor que invadia as mucosas de Bernardo retardou a resposta que surgiu ,ainda mais plena de arrogância:
– Acho que não está a entender. É uma festa para gente muito seleta. A nata, sabe o que é a nata da sociedade ? – o indicador demorou-se uns instantes a esfregar os restos da poeira nas gengivas – Gente giríssima e bonita como nós , está a ver ? Acho que você não se ia integrar bem. Sabe, classes sociais.
Zé da Neve não respondeu pois a sua atenção estava focada na contagem do dinheiro. Quando terminou devolveu o olhar a Bernardo. Chocou o orgulho cigano com o novo-riquismo prepotente:
– Então você vem aqui, à minha casa, falar ao Zé nessas coisas da gentalha rica e acha que o Zé deve ter pena de não ir à porcaria das suas festas? Oiça lá amigo, estou farto de vos ver, Vocês os meninos queques armados em senhores do mundo . Sabe uma coisa? se você nunca mais cá aparecer a mim não dá prejuízo . Mas a si, se o amigo Zé da Neve lhe faltar com o remédio o menino fica doentinho e vai andar ai doido à procura. E não vai encontrar. Porque ninguém tem branquinha tão boa como aqui o seu cigano. Ninguém, está a perceber? Por isso veja lá se é bem-educado e pede desculpa ou então não lhe vendo nada.
Os olhos azuis de Bernardo iluminaram-se como um farol de pânico incontido. O Zé da Neve prosseguiu:
– Por isso o amigo vai pedir desculpa e sair daqui com o que quer. E não se arme em chico esperto comigo ou ainda aparece todo cortado no fundo do Tejo e aqui a sua amiga – o dedo apontou Madalena que se havia encolhido com tom amedrontado no fundo do sofá – acorda amanhã numa casa de putas lá para o Norte de África. Por isso ..Manso , muito manso , e peça desculpa . Já!
A ordem do Zé da Neve foi reforçada pelo engatilhar das armas automáticas empunhadas pelos jagunços que até ao momento tinham pautado pela circunspeção a sua presença.
A arrogância e a prepotência de Bernardo desapareceram a uma velocidade ainda superior aquela com que tinha “snifado” as linhas :
– Oiça Zé , não o queria ofender , por amor de Deus. Peço imensa, mais imensíssima desculpa se o chateei. Não era essa a minha intenção. Você é o máximo, o melhor traficante de todo o distrito de Lisboa e longe de mim querer algum problema consigo. Está a entender, amigo ? – a mão vacilante de Bernardo estendeu-se procurando um aperto reconciliatório.
No sofá , encolhida no seu mínimo vestido e esbeltas curvas Madalena emoldurou um sorriso digno de capa de revista cor-de-rosa.
O olhar, de novo divertido , de Zé da Neve percorreu o casalinho assustado e deu por terminado o conflito:
– Pronto o cigano já não está chateado. Um dia destes o amigo convida para uma das festas no iate, não convida? – Um aceno exagerado de cabeça fez a cabeleira de Bernardo perder alguma compostura – Ó Janas – um dos cúmplices do traficante avançou – pesa aqui trinta bem pesadinhas para o amigo – A restante parte da frase foi dirigida a Bernardo – Tudo junto ou saquinhos de uma ?
– Gramas..Separadas , se faz favor – murmurou educada e polidamente o ricaço.
O Zé da Neve ergueu-se do seu lugar e dirigiu-se a uma outra divisão da casa. Não proferiu qualquer despedida e apenas demorou um instante os olhos pelas pernas de Madalena. O resto da transação ficou a cargo de Janas . Com gestos de muito hábito cortou, pesou e ensacou três dezenas de pacotes que foram distribuídos entre a carteira de pele genuína de Madalena e os vários bolsos do casaco de Bernardo.
O casal saiu da barraca e entrou com pressa na Porsche que entretanto repousava intacto perante o olhar vigilante dos dois comparsas que acautelavam o exterior da barraca do Zé da Neve.
Um chiar de pneus e o ronronar dos muitos cavalos acompanharam a rápida partida dos colunáveis. O silêncio entre ambos durou até ao final do Viaduto Duarte Pacheco. Remexendo a carteira a bela mulher tirou um cigarro que acendeu com nervosismo. Bernardo censurou:
– Madalena você ainda fuma? Que horror. Isso está tão fora de moda.
A resposta foi proferida numa voz afetada onde era notória a irritação:
– Vá-se foder Bernardo . Você quase nos ia fazendo ser mortos por aquela gentalha horrorosa
– Por amor de Deus Madalena. Você sabe muito bem que o cigano não estava a falar a sério. O que ele quer é o dinheiro, está a entender? Além disso eu não estou muito habituado a falar com gente rasca. Irritam-me. Percebe?
– Olhe que a sua irritação não é lá muito saudável perante as armas daqueles assassinos horrorosos.
– Não seja palerma. Você adorou a emoção. Confesse lá.
A bela face de Madalena desanuviou-se e a frase seguinte foi dita com um tom melado na voz:
– Sabe Bernardo , na verdade até fiquei excitada. Estou aqui toda a ferver. Não quer parar ai no hotel da área de serviço e comer-me? – o convite foi acompanhado por um acariciar da perna do condutor. Imediatamente o gesto foi repelido:
– Não seja tonta. Você namora com o meu irmão Gonçalo. Esqueceu-se?
– E daí? – Contestou Madalena – parece que faz algum mal se dermos uma quecazinha
– Você é muito puta , Madá – a ligeira irritação de Bernardo foi acompanhada pelo aumento da velocidade do bólide – Além disso não tenho preservativo aqui.
A bolsa foi uma vez mais rebuscada. Com um suspiro de desanimo Madalena informou:
– Eu também não . Por isso esqueça a voltinha – De novo um tom menos assanhado na voz – Então despache-se, a festa está a nossa espera.
Bernardo engatou mais uma mudança na caixa de velocidades e sugeriu:
– E se você fosse uma querida e fizesse uma linha?
Madalena bateu as palmas animada e demorou-se uns breves instantes entre o pequeno espelho de maquilhagem , um dos pacotes adquiridos ao Zé da Neve e as pancadinhas repetitivas e sincopadas do cartão de crédito sobre a cocaína .
Talvez o trepidar do carro ou o tremor do pulso delgado tenham sido a causa do descuido; as linhas formaram-se mais grossas do que era hábito e, segundos após a aspiração sôfrega das mesmas ,os canais nasais de ambos explodiam numa cascata de sangue e ranho que tingia as caras roupas. As pupilas do casal cresciam como dois sóis prestes a implodir, no seu fluxo sanguíneo a velocidade estonteante do pó fazia os corações baterem acima das muitas pulsações por minuto. Uma toxicidade perversa trespassou a mente de Bernardo e a sua mão dirigiu-se, sem hesitações, para o que Madalena tinha entre pernas. Com um sorriso de luxúria ela recebeu o toque e afastou as coxas para facilitar o acesso. Disse:
– Bernardo, você parece um Deus !!
Os olhos azuis de Bernardo brilharam, como duas supernovas imersas em Madalena . Retorquiu:
– Madalena. Nós somos Deuses!
Contemplaram-se ambos, desvairados, sequiosos senhores da Terra e do Olimpo, sentiam-se imortais e divinos. Infelizmente tal pasmar não era adequado ao cento e noventa quilómetros a que se deslocava o Porsche e a proximidade da zona das portagens. Hipnotizados na química ilusória da cocaína explodiram numa bola de fogo quando os seiscentos e dez cavalos de potência embateram, sem vestígios de travagem, no separador da Via Verde.

Anúncios

One thought on “Requiem em Pó Maior

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s