Sílvio Santana – I

Apocalíptico, abro a porta. Se pudesses ver meus olhos, são como o olhar de um general enraivecido com o botão que aciona a arma nuclear sobre seu dedo. Escutas os meus passos percorrerem o átrio do sítio onde moras estupidamente só.
De seguida vem o silêncio. Escutas a escuridão, procuras o interruptor enganado na crença que a luz deterá meus intentos perante a tua figura, meu desejo ser retalhador das partes mais dolorosas do teu corpo. No absoluto recato nada escutas senão o baixíssimo silvar da lâmina longa que manipulo lentamente, que dilacera o ar num zuno que antecipa o tormento que te aguarda.
Levo o dedo aos lábios secos da sede da tua agonia. Digo, sussurro:
-Chiu!
O tremor, sentes? O martelar do teu coração convoca os medos mais antigos. Não arderás na luz que vem breve e quente, serás minha vítima, meu repasto de sangue e gritos loucos da dor que não irá partir. Serás nada, fragmento, cinza entre cinzas, uma referência infinitesimal na minha capacidade de ser misericordioso.
Sinto-o também, o frenesim. É sinuoso, matreiro como o olhar da pantera negra a rasgar toda a treva, é feito de mal e anfetaminas. Atrás desta porta alargo as narinas e deixo entrar a fragrância do teu suor, o pavor no teu hálito prestes a terminar, o fedor quente da urina que inunda as tuas partes baixas. Sim, gosto disso.

Por detrás desta porta que sei que não está trancada, escuto a queda uma peça de mobiliário, o atarantado dos teus passos a tentarem ser, inutilmente, silêncio. Paras, ofegas, talvez já te recordes dos primeiros dias da tua inocência. É justo, a tua viagem rápida perante as recordações de uma vida que em breve partirá. É justo, respeito as tuas confissões aos deuses e as desculpas aos antepassados pela insignificância que pautou a tua passagem por este mundo. Não tens saída possível deste sítio que nunca devias ter procurado, esqueceste-te que o recato por vezes é o mais perigoso dos inimigos, e sabe-lo agora. Eu sei-o também. Aumento o movimento circunvagante da cunha de ferro aguçado. Espero, apenas uns momentos, antes da chacina, antes de, sem motivo e sem razão, alguém que em nunca reparaste irrompa pelo teu lar e reclame a teu derradeiro sopro.

Selecionei-te na rua, o teu passo sempre com pressa de ir para casa, as receitas de comprimidos que aviavas com excessiva ânsia na farmácia. As compras parcas no supermercado da esquina escreviam a prova evidente da tua solidão. Vi-te várias vezes a caminhar para a paragem de um autocarro com rota para os lados mais envelhecidos dos subúrbios. Esperei, um dia de cada vez, junto a todas as paragens da tua carreira, nem sequer me viste quando saíste no teu passito apressado e rodaste sem precaver a presença de estranhos a chave solitária de uma casa pequena e velha. Suponho que tenhas herdado a casa de uns parentes, que seja uma herança da família defunta que em breve re-encontrarás.

Preparo-me para a investida, sinto-te, no meio da sala pronto para a confrontação. A bílis que transborda no amargar do teu palato, sabes que a única forma de sobrevivência possível é seres mais duro, matar e não perecer. Irás dar-me a honra de uma boa luta de morte?

E se fossem iguais todas as loucuras dos homens neste momento, muito provavelmente, iniciaria a gargalhada ou o grito demente, chamaria o teu nome para o rol dos mortos mas tal facto desconheço. Não mereces tal contentamento ou comoção. Para mim és apenas o homem de passo lento que escolhi estraçalhar com absoluta crueldade. Aleatório, apocalíptico, este método de causar a execução do meu querer tão doente, o teu adeus será dito agora.

Distingo a tua mobília barata e cheia de pó dos anos sós antes de encarar a tua patética resistência. Os punhos cerrados de um perdedor atingem o ar quando, um perfeito movimento de flanco, o gume cava o socalco que se abre até meio da tua rótula. O teu esgar de dor é aumentado pela retirada rápida do ferro da chaga aberta. Gritas para ninguém que ainda esteja vivo te escutar. Apenas os abutres e as criaturas que se alimentam das coisas finadas terão, porventura, percebido o teu apelo.
A palidez anuncia o teu percalço. Tombas, desabas como um castelo das cartas de amor que nunca deves ter escrito. Este corpo em colapso a meus pés exige que estanque a hemorragia para que possa prolongar o festim que o demónio que vive junto à fronte esquerda exige. Demandas insistentes e dolorosas que só o calor do ferro em brasa e a perícia no corte das cartilagens poderão atenuar.
Enquanto manejo com habilidade o garrote e vasculho os bolsos em busca de uma mordaça o rastejador e abominável ser que vive aqui em cima, aqui do lado esquerdo, diz que, afinal, tem pressa. Obediente decapito e parto.

Em passos silenciosos regresso ao recato do lar, tomo a medicação e digo ao Satanás que habita a minha caixa craniana que esta noite já está tudo bem. Que o Sílvio Santana foi obediente e que merece dormir quentinho, que está tudo bem, que o mal foi feito.

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One thought on “Sílvio Santana – I

  1. Estimado Marco,
    já ia sendo tempo dos seus trabalhos terem espaço próprio.
    Aguardo com expectativa o momento em que o possa ler em formato papel.

    Deixo-lhe aqui expresso todo o meu apreço pelo que escreve.

    Fraterno e saudoso abraço
    Mel

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