Done Gorete e a Encomenda Postal

Atentemos os nossos olhares pela figura roliça que calcorreia , rápida e decididamente , a rua dos Anjos virando lesta à esquerda em direção à estação postal. Admire-mos o passo ligeiro de Dona Gorete, usualmente tão comedida no despender da adiposidade acumulada em sessenta anos de dedicação à causa da família e do belo repasto. Pasmem-se senhores leitores, pois na sua marcha a nossa heroína ignorou a saudação de Dona Isilda da retrosaria Fitinha , ato nunca antes ocorrido . Esbugalhem-se os olhos ao ver que foi desprezado o tirar respeitoso do feltro gasto do velho Dinis , engraxador e fanático benfiquista . Poderá Dona Gorete , madrinha de inúmeros bebés embrulhados em fitinhas de seda e aneizinhos de pechisbeque , sócia honorária da Associação de Jogos Florais da Freguesia dos Anjos , ter enlouquecido ? Poderá ter ganho os gestos rudes destas gentes modernas que vivem uma vida inteira paredes meias sem saber os nossos nomes , a cor das nossas peúgas ou o nosso santo de devoção?
Abandonemos o campo da especulação que é hábito de gente pouco atarefada e de má índole e devolvamos a nossa atenção à nossa heroína de chinelo elegante, bata com motivos florais em tons de negro que assentam bem a quem já carpiu o companheiro de uma vida, o castiço Elias que a cirrose bebericada nos tascos do bairro levou .
A porta da estação dos correios abre-se com um vigor que só uma vez conhecera, quando dois encapuçados de caçadeira em punho irromperam para rapinar as poupanças multiétnicas de um carregamento da Western Union. Uma palmada seca , feita do respeito ganho nas noites de Santo António na banca da Sociedade Recreativa , ultrapassa o A B C das senhas complicadas e exige em voz de menopausa e discretos licores :
– Saraiva, tens ai uma encomenda para mim . À cobrança . Recebi o aviso lá em casa!
Repare o notável leitor como Saraiva se move, desobediente ao vagar que é obrigação de qualquer decente funcionário público, lesto , eficiente na busca no monte de encomendas e regressa com um pequeno embrulho em caixa normalizada .
– Aqui está Dona Gorete . São trinta e dois euros, se faz favor
– Uma vergonha , está tudo pela hora da morte . Umas lãs para fazer umas botinhas para os sobrinhos da Guilhermina que estão lá a enregelar na Suíça.
– Pois é Dona Gorete , pois é – concordou respeitosamente Saraiva.
Mas ignoremos Saraiva , figurante sem importância no nosso relato . Focalizemos de novo a nossa perspetiva no retorno ao aconchego do seu lar da nossa personagem e constatemos que a estuga do percurso inicial não era motivada por qualquer receio de fecho do posto dos correios, pois o passito apressado até ao limite da variz se mantém. Fosse mais nova Gorete e poderia a nossa Vanessa Fernandes corar perante o ritmo imposto ao passo. Retomemos a nossa preocupação pelo abandonar de gestos de sempre, como a substituição da costumeira festa ao rafeiro Piloto por uma valente biqueirada , punindo o pulguento animal por ter ousado interromper a sua marcha . Será aquela doença de origem germânica , difícil de pronunciar, o motivo da benzedura perante a Senhora de Fátima anichada na parede da capela ter sido simplesmente ignorada ?
Será o violento fechar da porta de casa, deixando os cortinados de renda a abanar, motivo de maior preocupação? Desculpemo-nos com a legítima inquietude de quem bem quer a Dona Gorete para invadir a privacidade do sagrado lar e percorrermos as divisões numa busca consternada. A sala ,onde a fotografia do defunto Elias se encontra estrategicamente posicionada para poderem assistirem juntos aos programas do João Baião e à Eucaristia Dominical ,está vazia. A cozinha, os galinhos de Barcelos , o naperão sobre o micro ondas e a coleção de galhardetes de Moimenta , Montemor e Terras de Bouro votados ao abandono. Deus nosso, prenuncia-se alguma desgraça?
Mas, tombem os queixos e arregalem-se os olhos, é Dona Gorete no seu leito .Da apudorada vestimenta nada resta sobre a carcaça e da caixa postal, rasgada com brusquidão, não é que sai um falo de dimensões consideráveis para o aperto de tão decente senhora? Caros Leitores , o zumbir que escutais não é a tontura que sentis na vossa surpreendida alma mas sim o centrifugar de tão obsceno artefacto alimentado a duas pilhas AA . Corai nobres cidadãos, pois Gorete , com a brusquidão de tantos anos de penúria de carnes, encafua, de um gesto só, o reverberante mangalho de fabrico chinês nas suas intimidades e .. sim , prezado e estimado atónito leitor ..Atentai ,que após uns curtos minutos, pequenas pérolas de tom orgástico enfeitam o farto púbis .

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