Volkes Babel

Aeroporto de Frankfurt, 22 de Dezembro de 2007.

A entrada de mais cinco países no espaço Schengen misturou-se com a detenção de catorze suspeitos de terrorismo islâmico em Bruxelas. Para apimentar mais o momento inicia-se o regresso a casa, para a época festiva, desse imenso cocktail de tios da América, expatriados corporativos, japoneses para quem o Natal é apenas mais um período de compras furioso; homens do Islão, algumas burcas, coloridas roupas africanas, estivadores de Matosinhos que assentam asfalto em uma “strasse” qualquer, judeus “kosher”. Contemplo com desalento o imenso rebanho, alinhado em múltiplas e lentas filas, que se dirige ao controle de passaportes. A fila comunitária é de repente invadida por um bando de alegres checos e os seus passaportes empunhados com orgulho. Não contenho um sorriso. Também já me senti assim, europeu; há muito tempo atrás.
Ao fim de quarenta minutos de pés doridos enfrento a imensa simpatia da polícia alemã e sou autorizado a pisar a santa Europa; para mais uma fila, esta ainda mais longa e demorada. Preparo-me para o ritual do computador fora, cinto fora, muitos recipientes de plástico, o fazer de Cristo perante um detetor de metais portátil e umas mãos interessadas nas minhas bainhas.
O burburinho inicia-se à minha direita. Um neozelandês, transtornado pelas dezoitos horas de voo ao ponto da insanidade, rouba o revólver ao polícia intransigente que quer reciclar o biberão de cento e cinquenta mililitros do seu filho. Um momento de nervos em franja e ódio sem sentido faz com que a arma dispare aleatoriamente em seu redor. Surgem outras armas, as de polícias. Um golpe de um passageiro desarma uma das autoridades e logo uma mole humana se precipita num violento corpo a corpo pela posse da arma de fogo.
Alguém grita “bomb”, uma face árabe é violentamente esmurrada sem motivo. Alguém grita “Jihad”. Do balcão da El-Al surgem mais armas que, revelando elevado treino dos seus atiradores, ceifam todos os com aspeto islâmico em seu redor. Um idoso do Alabama regressa a Guadalcanal e desfaz a pesada bengala no crânio de um atónito nipónico. Um dançarino de tango recorda o pai morto e de gargalo quebrado carrega sobre as jugulares dos súbditos de sua majestade. Algures, atrás de mim, escuta-se o grito de guerra dos Zulus; o voo 346 da South African Airways carrega sobre o centro da batalha, bandeiras de propaganda feitas lanças da savana. Bambatha. Encosto-me a um canto, incrédulo perante o massacre que, perante mim, se desenrola. A inércia é quebrada por um murro violentíssimo de um tipo com ar nórdico que me desfaz a tromba. Chuto-o nos testículos e procuro uma arma. Rastejo até à casa de banho, estranhamente vazia; inclino-me para o lavatório e quando levo os olhos pela segunda vez ao espelho, procurando confirmar que a minha hemorragia estancou, avisto o reflexo da criatura no espelho. Mesmo atrás de mim.
Sei desde o primeiro milésimo que embora traje a forma humana tudo é maligno naquele ser. Um frio de morte invade os meus pés e mãos, os meus joelhos cedem um pouco.
É altíssimo, as roupas não são deste tempo; a gabardina negra de cabedal firmemente atada na cintura, o chapéu de abas largas são óbvios sinais dos anos quarenta do século passado e do mal donde esta entidade bebeu a crueldade dos dois olhos sem vida que me fixam. O rosto é de um cadáver animado, em algumas zonas imensas chagas cavaram quase até ao osso.
Fala, embora não haja movimentos nos finos lábios roxos de defunto:
– Queres ser um morto que não matou ou um vivo a tresandar a morte?
Não respondo, no exterior escuto o metralhar de uma arma, os gritos estão mais perto e intensificaram-se em agonia de muitos. O ser perante mim emite um silvar impaciente, algo de réptil, rastejante. Sei que estou pronto a vender a alma:
– Sim! Quero viver!
Os braços de criatura erguem-se e, antes de partir rodeado num fogo breve, exclama:
– “Feuerkraft aus der Hölle”*
Uma dor, incomparável a alguma que experimentara, percorre-me os braços, que, a partir da zona do cotovelo, se fundem numa papa de tendão e osso e começam a ganhar uma forma estranha; misto de ferro e de mim. São poderosas armas de fogo.
Sinto uma estranha comichão no que foi o meu pulso esquerdo quando o tambor da metralhadora de alto impacto começa a rodopiar, preparando o violento cuspir de centenas de munições de alto calibre. Do lado direito um duplo cano de grandes dimensões aparenta ser particularmente eficaz no combate de curto alcance.
Sinto tudo o que havia de bom abandonar-me quando regresso ao átrio e abro um corredor de cadáveres na horda. Caminho entre eles; uma barragem de canhonearia que, em passo lento, trespassando a multidão; entoa “in nomine Satanas “.

A voz ríspida faz a ultima chamada para o voo e sou devolvido, à velocidade da luz, a uma realidade mais iluminada e definitivamente mais tranquila. Abano a cabeça e rio-me da minha própria insanidade, recolho do meu colo, até há pouco adormecido, o livro de banda desenhada. “The preacher”
Acalmo os negros sonhos no decurso das três horas entre Frankfurt e Lisboa. As nádegas roliças da hospedeira e um “xanax” tornaram-me mais sociável. Quando se inicia a descida para Lisboa, acidentalmente, levo a mão ao nariz e surpreendo-me com o intenso aroma a pólvora.

* Poder de fogo do Inferno

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