Props

O caso teve início numa tarde de Julho tardio. O verão chegava com todo o vigor esvaziando as galerias iluminadas a luz fria. Os corredores amplos do centro comercial eram silenciosas testemunhas do evento dramático prestes a ocorrer. A vendedora de cartões de crédito, mulher sem fé no seu bónus de desempenho, viu-os passar mas o seu olhar cansado de nada vender ignorou o bizarro quadro.
A mão que agarrava o pulso do menino não era de alguém familiar ou mesmo vagamente conhecido à criança de dois anos que, no seu passinho ainda recente, corria o melhor que podia no encalço forçado. Um medo tão grande tinha o menino que não conseguia gritar. O estranho, um homem de cerca de quarenta anos, vestes sóbrias, um olhar de sujo desejo e um esgar de perdição sexual que consumavam o ato de usurpar aquela jovem presa. O raciocínio do pervertido baseava-se na ânsia de fuga para algum lugar onde pudesse acariciar com todo o impudor a delicada cútis ainda totalmente envernizada na verdadeira inocência.
Entretanto, a alguns corredores de distância, separados para o seu raio de ação ser maior, os pais. Ela perde o tino e treme enquanto a respiração descontrolada acompanha o vasculhar desesperado por seu filho. Tiago, é esse o nome do menino, como o avô, o pai de Luís, o perdigueiro aflito que com vigorosas passadas de corrida atravessa o largo corredor procurando sinal da criança que envereda a t-shirt amarela. “Filho , Filho onde estás? “
A visão da entrada para o parque de estacionamento aumentou o devaneio do perverso raptor. A criança deixava na vitrificação feita por máquinas lentas o rasto dos dois sapatinhos revirados. Biqueiras a deixarem uma pista de derrota, rastos de uma esperança ténue que a mamã chegasse.
Mas quem viu os rastos foi o pai. Ao virar da esquina, junto ao néon azul da Sony. O seu instinto disse-lhe: – Filho! – Luís correu com a velocidade do desespero. “De mim não te vais conseguir esconder. “ A metamorfose iniciava-se. Os olhos de Luís adquiriam um brilho de investida. O seu passo era uma carga de cavalaria em crescendo.
E então viu-o. O seu menino, o estranho de costas curvadas, um Quasímodo de toda a danação. E Luís sentiu a raiva, o seu ódio primordial brotava em golfadas de bílis que só podia ser saciada na morte do vilão. Cro-Magnon em fúria perante o predador que viola a sua sagrada caverna. O seu olhar é cego pela visão, não há muito distante no tempo, de as suas mãos acariciando a pele delicada, pondo o creme, tratando daquele corpo pequenino para o qual o hediondo abdutor tinha propósitos de uma tal obscenidade que as palavras tornaram-se um grito de ódio mortal na garganta rasgada de saliva assassina de Luís.
A ânsia dos poucos metros que distanciavam do velho Opel, bancos sujos de hambúrgueres de “Mac drive”, manchas de sémen extraído em vigílias a escolas primárias, cobertores impregnados em prazeres pagos a imberbes com fome ; tornaram a fuga do raptor desatenta a sinais de alarme. Quando escutou o grito era demasiado tarde, a ereção que lhe ofuscava o pensamento foi uma fatal distração.
A cerca de quinze metros daquele que lhe levava o filho Luís preparou-se para o golpe. Identificou os pontos vitais do inimigo, os incisivos de mamífero reluziram querendo a jugular, as mãos tiraram medidas ao fim do respirar do raptor. Os dias de ginásio retesaram-se para o salto do grande macho enfurecido. Garras e presas armadas, fúria de fim para o perverso que, apercebendo-se da presença e da investida, largara a criança e encenava o primeiro passo de corrida. Demasiado tarde. O ódio de Luís abateu-se sobre ele. Oitenta quilos, bastantes quilómetros por hora. A queda foi brutal, o desenlace rápido. Os dedos de Luís tornaram-se tenazes nas orelhas do bandido e, lembrando-se que o Diabo esperava por tão vil criatura, projetou-o em direção à morte. Bateu com toda a força que alimentava o desejo de agonia daquele imundo; uma força comprovada pela abundante hemorragia que brotava do crânio que se desfazia em pedaços irrecuperáveis perante os golpes dementes do progenitor da criança agora salva. A morte do pedófilo foi brutal. Quando parou, mãos, braços, camisa e rosto cobertos de sangue o olhar de Luís ganhou uma firmeza e serenidade que nunca haviam existido em si.
A prisão foi feita sem resistência. Pediu para se despedir do filho e da esposa; um oficial da PSP, olhando pelo canto do olho o cadáver do indivíduo referenciado há muito como predador de crianças mas, até à data, oculto numa barreira legal feita de solícitos e caros advogados, acenou a cabeça e permitiu que Luís abraçasse, com medo que fosse a última, a sua família. Depois vieram as algemas, o burburinho de multimédia, levantaram-se vozes, justiça popular. Uma petição na internet, o comentário irado de milhares de bocas que nada fizeram quando foi decretada a pena de prisão. Cinco anos. Muitas atenuantes. Um compromisso.
Nos bastidores do julgamento de Luís o telefone do Juiz presidente tocou no do Ministro da Justiça e murmuram-se vozes de preocupação perante quanto terrível seria para o estado de direito a prevalência da justiça popular. Vagas gosmas acertaram os detalhes e Luís foi apresentado como exemplo de justiça célere e generosa. Culpado mas atenuado no seu limpo cadastro. E assim ficou decidido, cinco anos no estabelecimento prisional junto à fronteira espanhola. Vale da Desgraça, assim designavam os presos o grande complexo cinzento que estava aninhado num vale inóspito com más vias de acesso e longe de qualquer povoação digna desse nome.
Foi na ala C do presídio que Luís caminhou pela primeira vez já passava da meia-noite de dia cinco de Outubro. As celas fechadas, a luz de presença e o luar exterior polvilhavam de sombras gradeadas o soalho. Junto à porta das suas celas a população prisional mirava, como era seu hábito, a chegada de mais um preso. Desta vez um famoso. O rosto de Luís fora presença em suficientes telejornais para que fosse do conhecimento de todos que o homem que caminhava envergando o número trezentos e treze, carregando os seus cobertores e os seus parcos haveres, era o assassino do pedófilo.
Quando a marcha de Luís e dos dois guardas prisionais que o escoltavam se cruzou junto à cela sessenta e quatro algo deteve o passo do recém-chegado. Do interior da cela, do alto dos seus dois metros feitos de músculo e crime, corpo retraçado de cicatrizes de rixas à navalha e de tiroteios em carros rápidos, o olhar congestionado do rosto de ébano de J fixava o homem que chegara há escassos momentos. Luís retorquiu o olhar, olhos nos olhos, contra as regras da penitenciária. Mas isso não desagradou a J. Tal com o oficial da PSP no dia da sua prisão aquele negro, conhecedor de tudo o que há de ilegal e sujo na grande cidade, acenou a cabeça em sinal de aprovação. Do interior da cela decorada com obscenos posters de” bitches” e “gangsters” vinha a voz de Pac Man.
“É mais forte o homem que sabe criar um filho que aquele que prime o gatilho”
A mão de um dos guardas devolveu, com um ligeiro empurrão, Luís à sua marcha. Já fora do seu campo de visão, ecoou o grito pela ala C. A voz rouca e poderosa de J, líder da fação dominante nos jogos de poder do labirinto de celas, anunciou:
– Props! – “Proper Respect” . A saudação do seu bando, da sua tribo. Homens duros de lenço negro e olhares assassinos que dominava o pátio e o bairro. Na linguagem da prisão dizia que para Luís não haveria iniciações anais no chuveiro, nem espancamentos por dez euros deixados pela mulher, nem roubos, nem serviços de merda a limpar a merda que todos faziam. Na língua dos duros dizia que quem ousasse molestar o homem, três um três no dorso estava metido numa guerra que ninguém queria.
O silêncio persistiu uns breves segundos, depois a resposta veio. De celas semi-iluminadas chefes de outras fações anuíram em grunhidos que Luís nada sofreria.
E assim tal sucedeu. Todos os dias durante dois anos e meio até que, por bom comportamento, foi decretada a condicional.
Numa tarde de Inverno que se apresentava, embora gélida, de uma luminosidade intensa que enchia de cor a ala C, Luís caminhou de novo. O algarismo caído de suas costas, o olhar firme mas agora tremelicando perante a ânsia de ver os seus que esperavam lá fora. Escoltado à distância por dois guardas Luís deteve-se de novo, como o fizera há tantos dias atrás, junto à cela de J que ocupava todo o espaço da porta aberta. O olhar dos dois homens cruzou-se pela última vez e foi desta vez a cabeça de Luís a dobrar-se em respeito. Quando retomou a marcha os passos do homem agora livre foram acompanhados pelo ritmo de mãos rudes de homens criminosos que socando em sincronia os ferros das grades marcavam a sua ida para a liberdade. O último som que Luís teve da penitenciária foi aquela marcha triunfal e o grito de “Props” ecoado em uníssono pelos prisioneiros. Ao fundo, já lá fora, um sol glorioso fazia brilhar as silhuetas de Tiago, seu filho e da sua esposa. Luís correu.

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