Halloween

Fui incauto no cálculo do tempo que demoraria a chegar a casa. A eminência do fim de semana prolongado aumentou, consideravelmente, o volume de tráfego. Não vou chegar a tempo de ver o jogo. É isso que desejo desde a hora de almoço; uma noite sem outras pessoas sentado à frente do televisor. Todavia o plano não está a correr bem. Demoro toda a primeira parte do desafio entre a primeira e segunda velocidade e o pisar repetitivo da embraiagem. Um soco no volante acompanha o primeiro golo do Atlético Clube de Nossa Senhora; avizinha-se um fim de carreira ao pior penteado que já passou no futebol nacional.
Quando estou, finalmente, a parquear a viatura na garagem do meu prédio o telefone toca. Um olhar ao visor de cristais líquidos identifica que a chamada provém de Mituxa, nome muito mais colunável que Maria Patrícia. Antes de atender a chamada revejo mentalmente a lista dos diminutivos de todas as minhas supostas amigas e constato que todos os nomes de guerra contêm um Xis. Na minha mente forma-se a imagem de uma matilha de “poodles” de latir irritante, pelo ridiculamente aparado e um cio imenso.
Inspiro e primo a tecla verde:
– Olá minha querida.
Mituxa grasna no seu estilo afetado; dicção nos limiares da trissomia do cromossoma vinte e um:
– Lindo. Está bonzinho? Então? Vem à minha festinha?
Embora o tom de voz procure um certo estatuto social, “vulgus” de gente bem, as aparências iludem. O cenário do evento é uma vivenda geminada algures numa das freguesias mais aborrecedoras do concelho. Espirituosos em promoção, “snacks” ultracongelados e um serviço Vista Alegre comprado em quarenta e oito prestações.
A fauna será constituída por vendedores de automóveis em uniforme Sacoor, gerentes de sapataria de centro comercial, trintões e trintonas ainda embrenhados em pós-graduações e mestrados que findarão no balcão de alguma fusão bancária. As divorciadas quarentonas, famintas de diversão para compensar década e meia de fogão e sexo-tédio na posição missionária. Alguns alérgicos ao compromisso, habitualmente homens, habitantes de estúdios minúsculos que desconvidam a qualquer partilha. Integro-me nesta última classe.
Muito álcool, Drogas nada, conversa merda.
Não me apetece conviver com a pantomina do “ser bem e divertido”. Estou cansado, furioso e com alguns pensamentos mais nefastos na zona da nuca. Tento declinar o convite:
– Querida. Desculpe mas não posso. Estou exausto. Tive um dia de doidos!
O ruído que chega da rede GSM é profundamente alto e agudo. O melhor nome para o classificar é ganido. Mas, na verdade, o som é mais semelhante ao “sample” da agonia de um suíno:
– Oiça! Não me vai fazer isso! É a minha festa do “Halloween”, um baile de máscaras giríssimo – contrapõe exaltada.
Confesso que a palavra festa despertou algo em mim. No fundo se sou membro de tal agrupamento de personagens é porque algo em mim é supérfluo, fútil e tendencialmente idiota. Na verdade pondero seriamente ir, depois do jogo. Mituxa instrui-me, tomando o meu silêncio como concórdia:
– Tem que vir mascarado de algo horroroso. Está a ver? Tem que fazer medo às pessoas. Imenso medo.
Ora ai está uma temática que me agrada. Termino a conversa rapidamente pois os preparos são demorados:
– Sou ótimo nessas coisas. Imenso medo, que máximo. Até logo, beijinho!
Botão vermelho, elevador, casa.
Nos poucos metros quadrados de impessoalidade Ikea a que chamo lar desfilo o ritual da metamorfose. Sistematicamente, sem descurar o mais ínfimo detalhe, a minha personagem da noite de bruxas e outras coisas maléficas ganha forma. Antes de sair, um olhar no espelho. Estou ótimo. A matar.
Chego exatamente duas horas e quarenta dois minutos após o fim do jogo. Estaciono o carro junto a urbanização. A porta da vivenda está fechada. Conto os automóveis. Estimo entre quinze a vinte almas no interior.
Após alguma insistência na campainha consigo que Mituxa surja na ombreira da porta. Está vestida de Morticia Adams. É bastante feia mas tem um corpo apetitoso, com realce para uns seios recauchutados que o decote do vestido expõe generosamente. Perscruta-me com o olhar, de alto a baixo, e censura vivamente:
– Que raio de máscara é essa? Algo horroroso é um morto-vivo, uma múmia, o Drácula, essas coisas – abana a cabeça – e você vem vestido de…empregado de talho?
Abrilhanto um sorriso plagiado da página quatro da revista “Caras”:
-Eu estou mascarado. Tal e qual como você me pediu. Algo horroroso!
O “flute” de espumante é agitado a curta distância do meu nariz:
– Dahh …. Mascarado de quê? O horrível homicida da charcutaria do Jumbo?
Aproximo-me, beijo-a de forma mais afetuosa que o costume, a quatro milímetros da cútis, e acaricio a zona onde se situa a carótida. Abato o olhar sobre os seios empinados e inquiro-me se a silicone terá algum efeito sobre o paladar das carnes:
– Alexander Pichushkin. O “serial killer” russo – esclareço – Já ouviu falar?
O rosto que já merecia uma intervenção plástica tenta dissimular a ignorância e contesta:
– E qual é a piada disso?
De facto a sua conduta vital apresenta-se bem saliente no gasganete anoréxico. Uso o polegar para avaliar a espessura da artéria antes de responder:
– Vai ter querida, uma imensa piada. Percebe? Minha bela torre branca.
A mensagem atravessa sem efeito o crânio oco. Com um gesto de desprezo vira-me as costas e bamboleia-se de regresso à improvisada sala – pista – disco – bar onde um “groove” ligeiro mistura o gelo nos copos.
Entre apertos de mão e mono beijos faço o inventário de cabeças. Dezasseis. Será necessário recorrer a alguma forma de imobilização de massas antes de iniciar a tarefa.
Desculpando-me na incerteza de ter estacionado corretamente o automóvel regresso ao exterior. Aberta a bagageira, contemplo embevecido a minha bela coleção de ferramentas. Tenho particular orgulho numa excelsa serra elétrica de grande potência. É usada por equipas de emergência em fogos florestais. Corta tudo. A pressa, ou vagar, na incisão dependem apenas do sensível controlo de velocidade e da arte do operador.
Seleciono uma granada de gás atordoante e coloco-a no bolso das calças.
Retorno ao espaço festivo, animado agora pela batida lenta dos “Massive Attack”. Ao caminhar entre os meus pares sinto que uma ereção se formou e que salivo mais abundantemente
No interior do soberbo avental de cabedal, digno do mais nobre açougue, sinto o toque frio e erótico do grande cutelo que é usado para o desmembramento.
Tenho sede.
Antes de começar o que me traz aqui vou beber um copo, dançar um bocado.

Anúncios

2 thoughts on “Halloween

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s