Defcon 2

Os talibãs do mercado livre e selvagem esfregam as mãos de satisfação, fatos caros e viscosos tecem planos maiores à própria compreensão. Num corredor do Senado um antigo general sussurra ao fabricante de armamento que uma guerra de larga escala retomaria a economia. O companheiro de bancada pousa-lhe a mão sobre o ombro e diz que deus é americano. Incentivou o militar à fala com os seus homens que ele faria o mesmo com seus acólitos. O general disse que primeiro teria que vir uma fome e uma penúria tão grandes que seriam cordeiros dóceis aqueles que aceitariam a arma carregada e o rancho melhorado. Vindo dos lavabos o CEO da farmacêutica perguntou quantas doses de morfina se estimavam necessárias nos conflitos de infantaria mais sangrentos. Quando as projeções chegaram rastejou para junto do armeiro e do homem de cinco estrelas ao ombro. Todos sorriram, todos sentiram que haviam escutado o apelo divino. Todos estavam a fazer negócio.
Do outro lado do mundo Muhammad fecha o cinto de explosivos e prime o acelerador a fundo. Os marines reagem tardiamente e dois deles perecem juntamente com Muhammad. Os três têm direito a oito segundos de reportagem na cadeia televisiva global.
Na casa branca um falcão de olhar vago prepara o voo sobre as presas. Toca o telefone. A chamada em conferência. O poderoso, o militar, o fabricante de morte e o farmacêutico parlamentam. O líder do partido inquire sobre as baixas estimadas. O número é largamente superior aos dos desempregados. A retoma do estilo de vida americano significa pleno emprego. Todos concordam. Gestos lentos limpam a ferrugem da chave de ativação do Defcon de nível máximo.
Do outro lado do mundo. Fiodorvich Ivanov pressente que o general inverno se apresta a chegar e deita um olhar, onde há uma certa fome, para as férteis e longínquas terras de oeste.
Os senadores da toga cinzenta e das sandálias de verniz perguntam a César se as legiões estão operacionais. César requer uma dotação extra orçamental. Serviços de saúde para não combatentes são decretados superavit. Racionaliza-se o desempenho. No corredor do memorial de Cleveland, Sara Mae, esvai-se em sangue enquanto aborta abandonada num corredor. O seu grito é ignorado pois no seu braço já pende o saco de soro a que a apólice a elegia.
Ao largo das Bahamas o demitido presidente do banco de investimento debruça-se da amurada do seu iate. Um grande tubarão branco nada junto ao casco. O olhar de ambos cruza-se. Os dentes lâminas do tubarão exibem-se ao rival. O telefone satélite toca. A linha é segura. O executivo recebe a próxima nomeação. Retribui o sorriso ao carniceiro dos mares. Assustado com a vileza do homem a besta mergulha em direção às profundezas.
Na planície imensa o exército da infantaria reúne mais de duzentos mil. Pés pequenos marcham sincronizados. Vagas de homens fardados, estrelas vermelhas ocultam o pó da terra. Na ponta das suas baionetas brilha o desejo de ser mais rico a qualquer preço.
Na estrada que leva à Casa Branca os homens comuns julgam ver a figura magra daquele que os poderá salvar. Os homens da CIA encolhem os ombros cientes da presença de múltiplos atiradores furtivos prestes a reclamar a sua marca. Em ruído de fundo os vorazes servidores das corporações preparam as transferências que recompensarão o homem da bala de ouro.

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