Mariana rodava

Mariana rodava , rodava com a mesma frequência com que rodavam os charros entre as mãos do bando. De todos eles tinha uma memória cravada na pele. Tinta ou ferro escreviam o nome dos homens que ,nas noites eleitas, roçavam dentro dela usando apenas látex desenrolado em ânsia adolescente. Para todos ela gritava . Para todos ela dizia “És o melhor do mundo “. Para todos era a fonte fácil onde iam beber suas ânsias de macho e descarregar suas lágrimas de putos pobres.
Mariana rodava e por todos os homens-miúdos de arma no cós e barrete sobre os olhos era puta e amada. Fizeram-se rimas dedicadas ao seu calor , os beats procuram replicar a cadência da sua cama velha , ferro contra parede , reverberação do êxtase. Quando alguém de outro bando também a quis as armas reluziram na noite e fizeram o óbito do intruso da santa rameira da tribo.
Mariana, um dia , desviou a sua rota , correu ruas diferentes onde os seus vigilantes já não eram reis. Não morreu, não foi violada , mas nessa noite , nos seus passos sussurrados, num bar que não continha gente das suas cores escutou o nome do profeta Zé Tóxico .
Desceu a uma cave, bateu a uma porta. Alguém abriu. Alguém ao canto do laboratório gritava que os vermes que habitam na sepultura estavam a iniciar o banquete nas carnes moles de seu corpo. O homem, Zé Tóxico, era deveras estranho, gazeado doutor dos ácidos, arauto do pensamento onde não se chega sóbrio. Na sua testa, fixa por uma correia de cabedal, uma lâmpada usada por mineiros de mentes e clínicos do insano. Olhos tímidos e cansados por detrás de grossas lentes sujas prescreveram:
– Precisas de salvação!
Do bolso retirou um pequeno frasco. Um conta-gotas sugou mililitros de líquido avermelhado. Com extremo cuidado quatro lágrimas caíram sobra a língua estendida de Mariana.
Quando ela perguntou “quanto?” o olhar do Zé Tóxico indicou a cama ao fundo do laboratório. Mariana achou o preço justo.
Quando saiu de novo à rua, as coxas cansadas, algo satisfeita ainda muito necessitada, a bomba caiu no mais íntimo da cadela da matilha dos lobos de rua. Correu. Faminta deles.
Os bairros sem nome ficaram para trás. Em poucos minutos as ruas voltavam a ter os “tags”que sabia ler. Mariana corria, Mariana resfolgava. A todos eles chamou, um a um, para dentro de si. E disse “Não. Não pares até ao fim”. E disse “Não . Hoje não quero camisa”. E disse “não , não te amo”. Todos eles gritaram como nunca o haviam feito. Cinco rios de vida , cinco afluentes misturam-se com o estuário agre que se aglomerava no útero de Mariana . Uma observação microscópica vislumbraria o estranho efeito dos espermatozoides daqueles que tinham tido Mariana a fundirem-se em algo reluzente, algo que brilhava com um óbvio cintilar químico. A cataplasma escorreu para o que mais fundo existia nas entranhas da mulher pública.
E o tempo passou e Mariana, aquela que tanto rodou, arredondou. Meses depois um bebé libertava os fluidos num grito que evidenciava saúde. No seu rosto, no seu corpo, como um milagre do qual as igrejas não queriam saber persistiam marcas, heranças em formas de tatuagens feitas sinais de nascença . Primogénito das ruas do bairro , orgulho dos seus. Na noite primaveril onde a criança nasceu uma deusa de África tomou uma mulher velha e fez com que a idosa gritasse a nova que vinha aí menino bom.
Foi uma procissão que meses depois caminhou em direção ao bairro onde habitava o Zé Tóxico. À frente do cortejo Mariana , ainda redonda mas prestes a reiniciar a rodagem , carregava, envolto numa manta ,o triunfo dos seus amores de ruas pobres. Não chorava o menino, entre as trevas o seu palrear trazia inocência às ruelas onde tantos haviam feito do asfalto a sua última cama. Nervosos, alguns passos mais atrás, os cinco acompanhavam a mãe de seu filho. A exigência de Mariana fora veemente, queria voltar a ver o homem que depositara na sua língua aquela vontade de ser fecundada, de ser cheia com algo que crescesse dentro de si e trouxesse alguma luz aquele bairro de gente sem fé , povo que ignorava a oração que não fosse proferida na arma ou no microfone. Soubera desde a primeira ausência de menstruação que crescia dentro de si algo que reviveria as gentes , que seu fruto seria ar fresco para esperanças quase mortas , para vidas alagadas no fundo da garrafa de aguardente e do cachimbo de crack
Agora ali estavam. De dentro do laboratório um homem gritava. Mariana reconheceu a voz, era a mesma que escutara quando ali viera da primeira vez. Desta vez a sua loucura falava que os fogos da inquisição ardiam dentro das suas entranhas impuras. Breves momentos esperaram até ao aparecimento do Zé Tóxico. O olhar, raiado de sangue , percorreu os homens , aflorou Mariana mas apenas se deteve na figura da criança transportada em braços. Um sorriso iluminou a sua face. Algo de novo brilhava no seu olhar, um sentimento, uma nova variação cuidadosamente elaborada ao bico de busen, algo assim. A mão procurou no bolso da bata e retirou uma pequena caixa que em tudo se assemelhava a uma caixa de graxa exceção feita à inscrição na tampa onde se podia ler a frase “Deus ama-te”. A revelação do conteúdo apresentou uma pasta luminosa de cor dourada onde minúsculas pepitas de um verde kriptoniano reluziam. O polegar de Zé Tóxico retirou uma generosa dose da pomada e começou a proferir uma lengalenga num idioma que nem Mariana nem nenhum dos seus homens conseguiu identificar. Do interior vinham os sons graves de uma batida londrina cuja métrica encaixava na perfeição nas sílabas estranhas que o químico proferia. Então, usando o polegar , Zé Tóxico desenhou na testa da criança o símbolo sorridente que o mundo instituíra como o símbolo oficial da pastilhagem.
Quando o baixo se calou houve um pequeno silêncio e então o bebé começou a rir. Um riso tão sincero que cortou a noite como um raio de luz , tão contagiante que Mariana e os seus não sustiveram as expressões duras de gente da rua e escangalharam-se numa risada coletiva. Durou pouco essa gargalhada. O olhar do Zé Tóxico dizia que tinha outros planos para os adultos. Um frasco de onde saía um gás com aspeto de proibição das nações unidas foi passado de mão em mão. As narinas que o aspiraram foram invadidas por tal ímpeto que as cabeças se reclinaram violentamente para trás, como se algo invisível tivesse pontapeado os queixos daqueles seis. Zé Tóxico recolheu ao interior. Durante longos minutos nada mais persistiu no ar que as gargalhadas do filho de Mariana e as respirações ofegantes dos adultos. Então o medo veio. Um medo maior que todos que alguma vez tinham sentido. Não era medo de morte, não era medo de dor era apenas o medo primordial que algo de demoníaco viesse e levasse o menino que ria. E pela noite correram, apavorados , passos rápidos em fuga descontrolada. Liderando o pelotão Mariana apertava contra seu peito já tão usado o embrulho do menino que ainda não parará de gargalhar. No seu encalço os homens tinham empunhado as armas e faziam ponto mira a todas as sombras. Montaram um perímetro defensivo no parque do bairro a que todos chamavam seu. No centro, Mariana acocorada , fêmea assustada que resguardava a cria a todos os pavores que se abateram sobre eles nessa noite que seria a mais longa de todas. Eles , os homens que haviam fecundado Mariana , eram a imagem perfeita do grande predador que defende o seu covil acossado. Havia algo na fragrância que Zé Tóxico lhes dera a cheirar que trouxe alucinações tão reais que durante toda a noite as armas ribombaram procurando matar fantasmas. Foram vampiros de presas longas , foram esquadrões de bófias mortos-vivos , deuses da fome que sussurravam que o menino iria agonizar lentamente sem pão e sem amor. Contra todos eles gritaram ,contra todos as armas largaram uma carga de chumbo que dizia bem alto “o menino é nosso”.
Então a manhã veio e o efeito da droga foi-se . Quando os olhos se entrecruzaram , exaustos e insones algo havia nascido no parque daquele bairro. Uns dizem que foi milagre , outros dizem que é mais um daqueles mitos que enche a cidade mas na verdade há um bairro , igual a tantos outros , que em noites onde a esperança parece ser palavra vã é atravessado por um riso incondicional de um menino filho de amores estranhos e quando essa gargalhada ecoa as armas não reluzem , os socos transfiguram-se em afagos e as palavras de morte extinguem-se. Um ouvido mais atento pode escutar dialetos de amor a elevaram-se das sarjetas , um olhar sem preconceito poderá ver o sorriso no rosto de um homem a que todos chamam mercador da morte.

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