Homem-Aranha

A madrugada já aconchegou o manto do sono da grande maioria da vizinhança. Eu não durmo, erro pela casa, o filme do canal onze é procedido pela leitura do jornal; gestos lentos e insones que adiam o recolher ao leito frio do casamento sem sumo e afeto. O meu desemprego descoordena-se intencionalmente com os horários da minha esposa de forma a tornar o matrimónio em instituição minimalista que balanceia ,conformada, em minutos parcos e silêncios longos.
Hoje , felizmente , tenho haxixe. Um bom hábito que mantenho desde a juventude . Há os bezanos , os da bola , os do som , os que atinaram , os que se finaram de OD, os que nunca mais vimos , os deprimidos e os casos de sucesso; eu pertenço à prole dos ganzados. No passado a matéria castanha, que se liquidifica em óleo suculento quando o produto é bom, fazia-me rir e ter muita fome; sobre o seu efeito tive as noites mais memoráveis e as depressões balançantes na linha amarela do metropolitano. Hoje , o meu cérebro ,já notoriamente afetado por tão longo consumo , é mais modesto nos seus escapes.
A janela do sótão é o meu local de eleição, o meu “coffee shop” feito de frios roxos e suores de estio; persiana aberta sobre o vazio do parque de estacionamento das traseiras que recebe o meu debruçar tóxico .
É um gesto que executo com o vagar de um cerimonial. Frequentemente penso que é uma eucaristia à alma do maluco que já fui. Esta noite nada difere das anteriores até à terceira generosa baforada no charro , então , naquele momento em que o pulmão arde na retenção da direta ,a voz vem , sussurrada , da janela vizinha:
– Oi. Tá fumando baseado ? – a questão é feita pela minha recente vizinha de origem brasileira , trintona , magra e mulata ; o marido com pinta de treinador pessoal costuma chegar tarde , no silêncio da noite já escutei discussões iradas e bofetões de cafajeste. Raramente me cruzava com estes vizinhos na escada e agora ali estava a mulher a perguntar-me sobre o que inalava. Resolvi fingir ignorância embora seja fluente nos muitos nomes da ganza:
– Baseado ?
Um olhar divertido percorreu o rosto onde a safadeza tinha cravado rugas nos cantos da boca aliciantes:
– É , vocês aqui dizem charro . Tá fumando charro?
Desarmado perante a questão, aceno com a cabeça e expiro o fumo que me resta cá dentro. Ela desafia:
– Vem cá. Dá p’ra mim
A euforia dos primeiros minutos de broa lança-me , incauto movimento delirante , numa arriscada manobra de passagem entre os dois parapeitos . Lá em baixo, o passeio tal como ele se apresenta visto de um quinto andar. Entre os dentes o fumo entra, como uma serpente de demência ,pelos meus pulmões aflitos pelo esforço e pelo medo . Sou o Homem-Aranha dos cáusticos em plena missão.
Já dentro de lar alheio encaro a minha vizinha. A sua única réstia de ocultação consiste numas mínimas cuecas brancas. A outra peça que enverga é de tal forma etérea que todo o resto do corpo seco está exposto. Contemplo , sorrio, tento criar saliva, estendo o objeto fumegante que é a razão de aqui estar. Ela aceita e agradece com um baixar de cabeça que me traz cheiros de gente pobre da roça. Enquanto se droga analiso a minha inesperada companhia. Tudo nela aparenta primeiros passos na legalidade, alguém a construir a vida , alguém que veio do campo com fome para o grande Rio desesperado e atravessou Atlântico com a fé de dias melhores. Não é especialmente bela nem bem torneada, contudo tem no olhar negro e desafiante e na tez de mulher sem vergonha os seus grandes argumentos. Comigo funcionam. Estremeço quando termina o charro e se levanta. Caminha lentamente para mim. Em movimento remove o que cobria o que tem de mais íntimo. Sussurra mais uma vez:
– Agora dou eu !
Movimentos rápidos libertam o que já tanto quero da prisão da roupa, a sua mão arrasta a minha para lhe cobrir a boca , em seguida retribui o gesto e cobre os meus lábios , faz-me entrar.
Quente, sabe ao que vem e quanto poderá durar. Quadris sabidos levam-me aos céus do deleite. Quando termina apenas uma frase:
– Obrigado . Gosto de sentir um calor dentro de mim.
Nada mais preciso escutar. Reponho a compostura e , agora com movimentos mais cautelosos , retorno ao espaço que é meu. Antes de sair, já pendurado no exterior vi-a voltar à sua vida. Havia um sorriso tranquilo no rosto da mulata.
Volto ao meu quarto e ,depois da higiene final do dia, deito-me ao lado da minha esposa. O calor abrasador que sinto ainda a percorrer-me de lés-a-lés contrasta, de forma quase obscena, com a brisa gélida que emana daquele corpo do qual já esqueci os contornos.

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