Céus de Londres

Estão extraordinariamente límpidos os céus de Londres.

Se fosse hoje quarenta veríamos a sua aproximação. Os bombardeiros.

O enxame do pássaro ariano a ensurdecer as ruas apinhadas da grande cidade .Seu zunido imenso , uma alcateia de lobos alados que das entranhas despejavam a demolição do mundo como o conhecíamos. Pepitas de fumo negro encheriam o espaço onde costumam estar as nuvens. Os rapazes da antiaérea por vezes estripavam uma asa ao Heinkel e um imenso “urrahh” ecoava entre os sacos de areia plantados sobre os telhados. As sirenes feriam os ouvidos. Ecoavam já as primeiras detonações e o Senhor Pickelberry caminharia no mesmo passo sereno em direcção ao abrigo. Gingando a bengala, a última edição do Times sobre o braço , o caminhar não acelerava um pouco perante a percepção das bombardas de quatrocentos quilos que já caiam no quarteirão.

Se hoje fosse quarenta as entranhas quentes dos subterrâneos chamariam à recolha. Em ordeira marcha, certos que um dia Monty desforraria a afronta ao grande império, os londrinos invadiriam as estações do metro. Lá em cima os homens da Luftwaffe deixavam todo o chumbo que traziam desde França descer em direcção ao solo. O guincho da queda dos projécteis invadiria ambas as margens do Tamisa. A grande catedral ergueria, no entanto , a sua cúpula imaculada. Nem o louco cabo austríaco ousara ordenar a destruição da casa de deus e portanto do rei.

Em Biggin Hill a sirene ecoaria, o grito aflito , “Scramble, Scramble”. Os homens exaustos , vigílias de farda posta, apressados , olhos raiados de sangue e preces para que os seus não estivessem a arder nas ruas de Londres. Ansiosos para ir cuspir o fogo estariam seus corcéis de metal. Em Biggin Hill a azáfama dos mecânicos em fazer rodopiar os rotores , os caças trémulos sobre o final da manhã prontos a ir largar a morte horrenda de um cilindro de aço em combustão interna entre as hostes de Goering.

Se fosse hoje…Se fosse hoje morreriam muitos entre a movimentação frenética de gentes apressadas que atolam os largos passeios de Oxford Circus e seus arredores. As lojas de alta costura iriam ser pulverizadas, rolariam para as sarjetas obscenas pulseiras de diamantes que na etiqueta do preço ostentam o alimento de muitos anos para alguns. Homens e Mulheres de todas as raças pereceriam. Parado em frente ao grande armazém miro o céu e penso que , independentemente da sua raça , nação ou credo, o agressor cometeria o acto contranatura de matar os seus tal é a babel de todas as cores do mundo que fervilha nestas ruas.

Seria inevitável.
A japonesa que fotografava cada fragmento de rua, como se tivesse que se esquecer rapidamente o porquê respirava por detrás da mascara cirúrgica, faria um belo e contrastante cadáver à figura negra, rei de uma savana que jamais conhecera , do rapper que diariamente se perdia nos loops marados que ecoam nos clubes do West End. Fecho os olhos e tento percepcionar os primeiros disparos das grandes armas antiaéreas. Apenas escuto o ronronar dos táxis negros e os passos ,ao fundo o zurrar de mil idiomas. Farejo os céus de Londres e não me vem às narinas qualquer odor das asas onde a suástica brilhava.
Todavia , ao colocar o pé no primeiro degrau que me leva às profundezas da linha do Jubileu sinto a ferroada amarga do meu inquietar . Os fumos , as bombas que explodiram lá em baixo. O aroma vitorioso dos bravos rapazes dos spitfires é rapidamente substituído pelo aroma suave que tinha Jane posto no pescoço e nos punhos quando , sem aviso , um homem de mochila gritou a despedida e a levou no sopro de uma guerra que não se abate dos céus mas que nasce sobre os nossos próprios pés.
Das entranhas do mundo vejo ascenderem ao solo os fantasmas dos que pereceram nos túneis naquela manhã de Julho. Vejo os seus gestos inúteis de pegar nos telefones e tentar dizer ao grande silêncio que se abatera sobre os céus de Londres que queriam ir para casa. E do lado de lá o nada. O moribundo sinal das redes móveis não disse sussurro algum aos que esperavam por palavra daqueles que arderam nas galerias e carruagens.

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