ZZ Top

Ausente de coerção , ausente de impedimento, não há horário de sítio algum, nem lugar onde o relógio ecoe o meu nome agora devotado ao esquecimento. Os minutos não são nada mais que a contagem do tempo das faixas que ecoam sem pausa no rádio do carro, o volume foi levado aos dígitos máximos da sua capacidade, o retrovisor vibra em sincronia com o som mais grave , dentro da minha cabeça o pensamento não consegue formular duas linhas que não sejam interrompidas pelo refrão da canção, pela frincha entreaberta da janela a estrada zumbe-me todos os marcos que me levam para mais longe de onde não quero voltar. Não tenho piedade pelo que deixei para trás, embrulhei o tempo de ser quem estava cansado de fingir e troquei-o pelo braseiro ardente do deserto, pela infinidade deste pais onde o meu nome não é nada mais que uma estatística nas entradas de estrangeiros e o meu paradeiro agora incerto visto há muitos dias ter abandonado a espelunca onde originalmente me registei.

A estrada chamou, não a velha sessenta e seis que agora só existe a espaços e que, como qualquer mito do mundo atual, está inundada de recantos de Merchandising e alcateias sedentas de memórias que se adquirem por razoáveis dólares. Vasculhei entre os quadrantes perdidos do mapa onde pequenas estradas aborrecem a condução , retas de asfalto carcomido pelo esquecimento e pelos rodados dos camiões que levam comida aos lugares mais esquecidos da América.

O próximo lugarejo fica a vinte milhas e dá-se pelo profético nome de cidade do dia novo. Deito um olhar ao manómetro do combustível e resolvo que é tempo de atestar a benzina e a cerveja. Pelo canto do olho os vestígios mortais do pacote de “Bud’s” dizem-me da sua míngua enquanto o metal aquece sobre o sol trespassante que atravessa o ar e encharca-me o rosto pouco higienizado onde a escanhoada é memória longínqua . Pingas gordurosas que rolam como cascavéis da minha desidratação. Os olhos ardem do estio por detrás do negro dos óculos de sol , o odor do meu corpo relembra aos ainda existentes restos de civilidade que estamos em terra de feios , porcos e maus e manda os fragmentos remanescentes do homem que fui encostar na berma para aliviar a bexiga e tatear no porta luvas mais um pedaço de erva e um analgésico para a dor de cabeça que suponho ser feita de todas as minhas antigas memórias a mesclarem-se com o solo do Texas . Como numa banda desenhada dos tempos de uma meninice há tanto ida a caveira de um animal que secou sobre o fogo da estrela solitária encara-me e diz que não posso ficar a mirar a imensidão que me cerca. No ar os abutres descrevem um círculo expectante ao meu eventual colapso.

New Day Town é o nome pomposo para um amontoado de barracas largadas a espaços nas bermas da antiga interestadual. A inevitável bomba da Texaco e a espelunca imunda de gordura onde os assentos de plástico disputam ,no seu vermelho comido pelo sol ,alguma companhia. Ao balcão há refeições pouco saudáveis e um jarro de café frio que ganha o encanto de uma bebida divina quando confrontado com a imensa fealdade da empregada obesa e carrancuda cuja placa de identificação ironiza com o nome de Joy. Os poucos ocupantes da cafetaria olham-me com o misto de desconfiança e curiosidade que os fragmentos do sonho americano deixaram na borda do prato mais sujo. Decerto na parte inferior do balcão existirá calibre quarenta e cinco para punir gestos bruscos e insolências de forasteiros.

Opto , incautamente , por tentar estabelecer algum diálogo com um fato macaco imundo onde o boné dos Dallas Cowboys já perdeu toda a cor , o nome é Joe. Talvez Doe , talvez não tenha apelido. Olha-me com um desprezo orgulhoso quando levo a conversa para o novo presidente e para o eventual renascer do orgulho ianque. A grossa escarrada que aterra na cuspideira de latão traz o tom da resposta:

– Ele diz que pode , ele diz que podemos . Nós , aqui neste buraco de merda não queremos saber . O Bush pelo menos cresceu no Texas – uma segunda cuspidela ,que falha o alvo e aterra em fragrâncias pouco suaves de verde no soalho , é acompanhada por um lampejo de ódio – e era branco!

Concordo com um sucinto “sim” pois temo que qualquer discordância possa terminar com a versão moderna do linchamento do “desperado” . Compro dois pacotes de cigarros e cerveja para as milhas que se avizinham, despeço-me tocando com os dedos a imaginária aba de um chapéu que não tenho.

Rodo a chave na ignição e afasto as imagens do meu corpo a espernear na ponta da corda deixando-me embalar no ronronar de dinossauro adormecido dos oito cilindros. Por muitos quilómetros remeto-me ao silêncio, o radio calado, apenas o tamborilar amarelado da nicotina sobre o volante. Entre dedos o cigarro que outros tempos diziam ser a escolha dos vaqueiros .Não posso deixar de sorrir ao recordar a imensidão de morais que se sucederam desde o mito inicial do homem do Marlboro, o seu olhar mulherengo que brilhava azul entre o fumo e as apaixonadas enrabadelas sobre as estrelas dos rapazes de Brokeback Mountain .

A noite começa a cair sobre a pradaria e oferece ao meu deslumbramento um monumental pôr-do-sol. Procuro na circunferência amarela a sombra do cavaleiro solitário que parte assobiando mas, em compensação ao desejo de postal ,a estrada oferece-me o estranho quadro de uma altíssima loura envergando uns minúsculos calções de ganga esfarelados . Ao peito uma placa diz. “Houston – Concerto”.

O polegar estendido é um apelo demasiado forte . Encosto á berma e ,abrindo a janela ,inquiro qual o concerto . A mulher , algures na fronteira entre a devassidão da juventude e a maturação da existência galdéria , deita-me um sorriso divertido e colmata a minha ignorância abrindo a camisa ,onde os colarinhos terminam em pontas metálicas , revelando na pele ainda lisa dos opulentos seios duas enormes tatuagens . Dois zês que lhe concedem o acesso ao banco do pendura , o rádio volta a ecoar alto , guitarras tocadas com uma moeda de dólar.

Agora não é apenas o espelho que vibra, palpita-me o peito quando a minha parceira recosta o banco e deixa-me vislumbrar , pilares magníficos saindo das farripas da ganga , toda a extensão das suas pernas. Agradeço a Deus pela caixa de velocidade automática e deslizo a mão direita em direção a ela.
Algures na jornada através da noite texana, talvez efeito da cevada e da erva , talvez combalido pela cabeça que se afadiga no meu colo , juro vislumbrar na berma a figura barbuda de três homens de óculos escuros. Acenam em concordância aos meus propósitos e os seus braços rodopiam, em perfeita sincronia, indicando a rota .
No rádio o uivo do coiote , o V8 cola a sua potência ao asfalto. No horizonte as luzes de Houston rasgam o breu.

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