LA

O dicionário diz decadente.

Aquele que enfraquece, abatido, corroído pelos dias feitos de ressaca , noites a brilhar como um cometa feito de opiáceos . O dicionário não tem palavra para os patéticos homens de pupilas feitas cabeça de agulha que se sentam nos seus cabelos longos e descuidados nas esplanadas do Sunset Boulevard. Braços cobertos de tatuagens berrantes de rosas , mulheres nuas e armas fumegantes. Camuflagem das ferradas da seringa, óculos espelhados protegem a congestionada retina, anéis de nobreza ausente, pulseiras de cabedal e ferro fora de moda.

Santos de pó emitem sorrisos embevecidos no bourbon à passagem da patinadora de seios grandes e biquíni curto. Um deles grita que ela é um relâmpago que o faria em cinzas no conchego do cetim . Quem fala é aquele que cheirou mais , aquele que ainda não conheceu o sono e para o qual a presença do sol é apenas um incómodo momento de luz que se atravessa na espera pelo néon que brilha, os carros potentes descerão a avenida com os woofers a rebentarem no bombo duplo a fúria de uma canção. A letra diz que é hora de ligar os reatores e deixar a vida implodir em laivos de nitroglicerina ; hora de esquecer o amor pois isso é coisa de crentes demasiado lentos.

E ela sorri para trás , olhos feitos da vontade de ser a babe suprema da sinfonia de insanidade ,fatos lustrosos de cabedal e lantejoulas. Uma multidão a gritar, as nádegas do guitarrista expostas pelo antiquado desenho das calças. A plateia cheia, mulheres encharcadas em shots e cheiros levantam as camisolas e mostram o peito. Há de tudo , grandes , pequenas, a cair de uso , a cair de esperar que alguém as aperte. Algumas tatuadas, algumas recauchutadas.

A viver o sonho de ser a estrela que jamais serão .

O sol de Los Angels a fazer brilhar as ancas perfeitas, os peitos musculados dos atletas , todos sorriem , todos são ausente de gordura. Queimam-na em ginásios, nos clubes limpam os últimos resíduos da obesidade nas danças e na faina dos narizes.
Sobre as luzes da ribalta os veteranos da incúria de si mesmo. As prisões , as fotos íntimas tornadas tráfego colossal de internet , as canções por vezes esquecidas , o piroso levado ao limite do rímel em olhos de homem ,vestes apertadas que revelam membros sempre eretos no deboche químico .

Os homens velhos , o esmorecer esclerosado na expressão do guitarrista que só à força de bombas de anfetaminas consegue dedilhar o solo daquele que foi , outrora , o êxito numero um das tabelas. A bateria a disfarçar no reverb as falhas de coordenação entre o pedal do bombo e o prato de choque, E todavia , quando os homens velhos sobem ao palco nas suas ridículas fatiotas , passos hesitantes de profunda comoção, quando a bota de tacão brilhante toca a madeira do palco, o tempo do rock é generoso com eles
O vocalista louro ecoa , camiseta de veterano do Vietname , tatuagens ainda com pinga de sangue ; o grito de guerra perante os cinquenta mil que enchem o estádio. As musas que vivem nos elementos ativos do bom ácido e da pouco cortada cocaína atiram-se à turba como um cardume de piranhas famintas do suor fresco daqueles que agora gritam , daqueles que erguem os punhos , o puto de cinquenta anos a tripar um grande solo entre os cabelos brancos e a gigantesca barriga . As mamas de Sally , mãe de três , cinco abortados , caídas ao solo à vista de todos , imenso esgar de vagabunda no canto do lábio.

A tatuagem diz “ Fode-me , sou fácil”.

O sistema de amplificação lança a canção doente do amor que se quer de só uma noite e de posições pouco ortodoxas, gritos de prazer fingidos que são o oculto e real segredo de mais uma noite com a realidade forasteira que se diluirá nos vapores do matinal esquecimento.
Vida que acaba entre noites de borga com o fígado corroído e as artérias revestidas por dentro de uma espessa camada de todos os vícios que se pode por no corpo. Sacrifício grupal, corpos em queda , em chamas , incinerados por esta cidade que tem demasiados clubes , demasiadas mulheres , homens de hábitos de Sodoma e Gomorra , demasiado crédito , demasiados traficantes e noites que exigem para pagamento da sua grandeza imensos pedaços de alma.

O baixo cheio de efeito a marcar o tempo a que os corpos se deixam ir uns para os outros, homens de suor no rosto acariciam-se mutuamente, duas esculturais groupies entrecruzam as línguas de cascavel no cio. No centro da arena já é numeroso o amontoado de criaturas que trocam carícias mais intimas. A canção diz que o devemos fazer durante toda a noite. Alguém toma mais um comprimido procurando alento. Outros correm para a casa de banho, as fitas que usam na testa fazem belos garrotes.

Circo do lixo branco em plena ebulição .Quem que é se preocupa com o que se passa nesta arena? Neste coliseu de imperadores do caos e gladiadores de todas as perversões que os homens conseguem fazer uns aos outros. Como um coração que bate depressa demais e sente a glória dos seus dias dourados a partir no fôlego que se perdeu nas entrelinhas da insanidade, o som da canção atravessa o ar e entra sobre as frinchas caladas de Sunset Boulevard. Pouco tempo depois ecoam os gemidos e ais daqueles que dormiam até que a lengalenga ,que fala de uma mulher de cócoras e um homem desejoso de a ter ,os desperta e reaviva os esquecidos libidos que a noite é feita para as coisas da carne e só quando o sol queimar os corpos de forma insuportável devem os convivas do hedonista festim recolher aos seus covis. Que quando caírem sobre os lençóis sujos da cama não devem ir sós, que Sally dirá que os amará até lhe doerem os ossos. Algumas horas depois, quando voltar à consciência, a devassa mulher perguntará a seus amantes quais seus nomes pois só os relembra pelo ímpeto e tamanho.

O sol a raiar de novo sobre a grande avenida.

Em passos arrastados regressam os jeans rasgados , rostos enrugados em noites brancas retornam às suas suites de motel e aos seus sonhos de uma mansão que as dívidas esfumaçaram. Junto a um bistro, que tem ótimas comentários nas revistas e serve doses minimalistas ,a outrora bomba sexual de busto gigantesco discute com um agente entediado se pode relançar a carreira fazendo porno .O homem cansado do pó sem brilho que enche os decotes das estrelas decadentes encolhe os ombros e relembra que não há parte do seu corpo que não esteja disponível para descarga eletrónica .

Um pestanejar dos longos artifícios antecede o esgar do estrogénio e inquire sobre alternativas. Talvez uma religião das vadias esquecidas , um programa numa cadeia regional de baixa audiência , um combate de wrestling na lama , um trio ao vivo num reality show, um filho de uma celebridade mais fresca. A lista termina com um grito de impaciência que algo seja feito para o seu bem-estar.

Novamente encolhendo os ombros o empresário sugere o suicídio mas, três segundos após a inicial afirmação , corrige-se perante a vulgaridade do facto entre as vielas que vão até Beverly Hills .
As unhas longas da mulher que enverga joalharia falsa e um vestido curto escarlate entrelaçam o músculo tonificado que se esconde sobre um casaco da coleção de dois mil e dois. Falsos diamantes de sentimento escorrem pela bochecha inchada. O agente relembra que há uma década atrás eram milhentos os homens que imaginavam o seu prepúcio afagado por tal cavidade. Decide que o único facto de relevância comercial e pública da sua cliente foi apenas o exagero das suas curvas , a beldade esculpida em serras que acertam ossos ,a tesão hedionda que a sua falta de vergonha ( e o facto de fazer garganta funda) despertou na populaça masculina. Resignado, aceita a ideia da película com triplos xis. Exige uma choruda comissão e ,pelo menos, um trio multirracial e uma ousada cena lésbica. Tem no seu portfolio quinze candidatas de silicone a necessitar retoque sequiosas de rolarem na cama tamanho de rei sobre os focos quentes e os grandes planos das depilações.

As mãos trémulas e pintalgadas pelo vento seco dos tempos e o exagero de solário rebuscam a carteira procurando uma esferográfica que assine o contrato. Quer falar de promoção e das entrevistas em prime time. Ellie Foxx nada encontra exceto um isqueiro que alumia cigarros longos e apressados , uma lamela de barbitúricos quase no fim e um espelho que a cada dia se torna mais difícil de encarar.

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