Estas Ruas

Estas ruas. Este incessante desfilar de casas pobres onde moram os peixes mais pequenos do oceanário da ganância. Estas ruas pedem ao natal que se esqueça delas para que não seja maior ainda a sua vergonha. Nestas parcas mesas engolem-se consoadas curtas de salários atrasados e muitas bocas para alimentar. As armas estão encostadas à arvore; nos presépios de alguns a manjedoura do menino é usada para esconder a dose que vai ser dada à hora da missa do galo. José desejava tanto ser um desses , um que tivesse algo para dar . Todavia tal não sucedia.
E era noite de Natal e não havia bucha para encher o bandulho das pequenas e não havia um resto de pó para acalmar a ânsia. José tremia junto à mesa, Maria tremia sobre o colchão. As frágeis pernas da mulher eram bambus descontrolados bafejados por uma má ventania , joelhos feitos castanholas a tiritar a falta do produto. E era noite de Natal e as pernas não se iriam abrir para os euros suficientes que acalmariam a fome do estômago e da veia. Esta noite seria infrutífero caminhar a avenida à espera dos homens dos carros escuros, do vidro que descia revelando um olhar sem amor e com pressa. Hoje eles trariam as esposas e as crianças. Não podiam parar para um broche ; a cama da pensão mais triste da cidade ficaria órfã do arfar dos senhores sérios e das putas agarradas .
A Maria só lhe restava esperar que a cena do José fosse verdade. Que não fosse mais uma tanga , que não fosse mais uma das constantes mentiras de quotidiano do agarrado. As coisas que nunca aconteciam, o tipo que nunca aparecia , o cavalo que era mal aviado. A cena que não dava e não havia nada para dar. Maria entre duas convulsões do estômago ,antes da cãibra que subiu desde a planta do pé, lembrou-se que era natal. A seguir ressacou mais um bocado.
E José esperava. E esperava com a ansiedade que a heroína cria no corpo dos seus filhos; cada segundo uma eternidade ,cada minuto mais um pedaço de dor. A camada de suor que lhe escorria pela testa sabia a todos os fedores que um corpo pode comportar. Os olhos de José tremelicavam a rua, esperavam as luzes do carro que o Galego tinha ido buscar. Para irem fazer a cena. Para irem à bomba. Rapinarem a bomba para depois darem bombas. O Galego dissera “Porque hoje é natal quero caldar um grande peru”.

Mas era noite de natal e não havia nada para dar.
E lá do canto, onde ficavam os colchões mais limpos, uma voz veio. A mais velha ; fruto do amor de Maria e de um agarrado qualquer que já cá não estava. Da sombra o vulto magro inquiriu:
– Hoje é Natal. O que vamos comer?
O punho de José ergueu-se e puniu a insolência da trémula figura de uma criança que sabia mais da miséria que da brincadeira, que se chamava Sara e que agora sangrava do canto da boca. O padrasto; olhos esgazeados , saliva e raiva expelidas a curtos centímetros do pequeno rosto :
– Cala-te caralho ou fodo-te a puta da tromba
E lá do colchão sujo , Maria nada dizia. A filha nem ousou desperdiçar um canto de olhar em direção à figura de tez acinzentada que se contorcia ignorando o código genético mais básico. Sara sabia que não tinha mãe que a acudisse. Afastou-se. O silêncio dos olhos no chão. A manga da camisola de fato de treino estancando a ferida. José voltou a olhar pela janela. Onde é que estaria o Galego?
Um silêncio, entrecortado em respirações ofegantes e calafrios, durou alguns segundos:
– Pai?
Era mais de menina pequena a voz que agora vinha do canto das crianças. Por alguns segundos a abstinência de José fez uma pausa e ele conseguiu sorrir ao vislumbrar a figura da filha. Da genuína, o fruto do ventre que ele havia ejaculado sem cuidados uns dias após conhecer Maria . Filipa era um tiro falhado na roleta russa que se joga com seringas e peles cruas. Filipa ainda tinha no rosto e nos olhos resquícios daquele que havia sido o seu pai antes dos dias do cavalo. José pegou com evidente dificuldade a criança ao colo. Um passo rápido para a frente impediu a queda. O seu centro de gravidade estava a duas gramas de distância. E o Galego nunca mais aparecia. A menina disse
– Pai . O Pai Natal vem cá hoje?
E Filipa quis saber
– E entra por onde se não temos chaminé?
Na janela da barraca piscaram uns sinais de máximos. “Um , dois , um, dois” contou José já abstraído da criança ao seu colo. Desculpou-se, enquanto pousava apressado a filha e dirigia-se, com evidente nervosismo, à porta:
– Filha , ouve , o Pai tem que bazar mas … o pai natal , entra pela porta . Deixa dinheiro e coisas fixes . Se abrires os olhos só um bocadinho consegues vê-lo. É um senhor de vermelho
E abalou , a porta fechada com estouro arrancou alguma consciência em Maria que se arrastou para a sanita . Antes de gorgolejar réstias das suas entranhas enxotou a filha de volta ao seu canto.

– Estas ruas..puta de merda ..tanta luz…vamos! – as frases eram proferidas por um José encharcado em suor , olhos vítreos de vontade , mãos tremulas afagando a shotgun que o Galego lhe passara no percurso que se fizera num silêncio apenas rasgado pelos esgares de dor da necessidade de mandar um caldo. O Galego acelerava , José ressacava. As unhas ganhavam contornos de sangue tal era o vigor da coceira com que procurava excomungar a aflição do seu corpo. “Nunca mais lá chegamos”, o pé batia insistentemente no chão como que se a procura de uma maior velocidade fosse profilaxia patética da cãibra que cravava suas garras afiadas na barriga da perna.”Nunca mais lá chegamos”
Lá era a bomba de gasolina que se perfilava na sombra do estádio onde hoje, certamente ,não ecoariam os gritos de golo. Lá era onde estava o dinheiro que permitia comprar a heroína, lá em baixo do morro a grande área de serviço acolhia os carros apressados para a noite de consoada que atestavam os depósitos num frenesim de pagamentos automáticos e buzinadelas , nos vidros das portas traseiras os bafos ansiosos das crianças criavam quadros de vapor onde anjos de asas partidas ganhavam forma. No céu uma enorme estrela brilhava. A José pareceu que a mesma cintilava mesmo por cima dos néones que anunciavam menos um cêntimo no diesel.
O carro roubado travou com uma chiadeira de pneus que revelam a pouca mestria do condutor. José e Galego saltaram dos bancos empunhando as armas e entraram pelo espaço onde as manchetes anunciavam que a estrela da TV havia aumentado o peito e que bica e croissant custavam apenas um euro. A caixa multibanco não entregava talões e o óleo de última geração garantia um menor consumo. José também ele queria consumir e para tal estava disposto a tudo , o grito veio
-Todos no chão ,caralho ,ou levam um tiro
No escaparate os últimos títulos de Hollywood apresentavam os olhares duros dos heróis. Nos filmes todos se deitariam no chão, todos trocariam o tremelicar do seu pavor pelo tiritar frenético que abraçava a caçadeira de José. As armas reluziam perante o espanto dos dois empregados de serviço. José insistiu – Todos nos chão ou morrem !! – a voz a esganiçar-se na aflição que lhe fazia palpitar o coração em grande estrondo .
Mas as noites de Lisboa não são cenas de filmes e os brandos costumes tem vindo, aos poucos, sendo trocados pela capacidade de retaliação. Se um dos empregados havia congelado no pasmo da sua camiseta cor-de-laranja que dizia que ele também acreditava , o outro; um rosto rude onde se adivinhavam o cansaço da existência e as mazelas de anos de pequenas violências urbanas tomou outro tipo de postura. A pistola surgiu entre o canto do mostrador onde ficavam as gomas e os volumes de tabaco. O movimento denotava destreza, como um relâmpago o braço estendeu-se e duas retrações do indicador decretaram a morte do Galego. Para ele não haveria mais ânsias, a cabeça explodiu como uma melancia atingida por um potente zagalote. Depois , num terror que parecia ter feito abrandar o tempo , a boca da arma dirigiu a sua fome de morte à figura de José. Este , pasmado na visão do corpo descarnado de crânio do seu parceiro que tombava sobre o soalho, perdera o tempo de vantagem que os dois primeiros disparos lhe tinham concedido. Um milésimo de segundo de hesitação, um pensamento traidor que lhe disse que não tinha verificado se a arma estava carregada , um piscar de olhos para afastar o suor que era uma catarata acre na sua perturbada visão feita de pupilas enormes ditou que os dedos sobre os gatilhos da shotgun e da pistola de nove milímetros sincronizassem o seu canto , como um coro que cantava hossanas os dois disparos foram simultâneos. O vermelho do sangue encheu o espaço, o gasolineiro voou empurrado pelo coice do disparo contra o distribuidor automático de cigarros, de peito escancarado pelo efeito da queima-roupa escorregou ao longo do balcão enquanto a maquina irónica o soterrava numa chuva de maços vermelhos e azuis onde a inscrição “fumar mata” adquirira o caráter de uma piada final. José sentiu que a morte passara através de si. A sua perceção do chumbo quente a entrar pequeno no seu abdómen e a sair , qual bola de golfe, pelas suas costas foi de tal forma vincada que ainda o projétil não atingira o solo e José já sabia que estava a viver os seus momentos finais.
Então ( talvez por os milagres nem sempre serem coisas boas ou então simplesmente por ser hora de prestar contas e o medo do criador existir em um dos neurónios ainda vivos ) a mente atolada em pensamentos de seringas, meias gramas , torniquetes e todas as variantes do universo da droga largou tais preceitos e uma aflição ,que não era feita da necessidade de injetar-se , mas sim do canto final da sua ainda existente consciência correu rápida e insistentemente pelo cérebro calcinado de José.
“A minha filha , a minha filha” era este o único pensamento que o assolava agora .Já não queria dar , já não queria cavalo ,já não tinha fome porque o seu estômago era órgão dilacerado pela violência da cidade que não sabia que esta noite era santa. Apenas dizia, a ladainha do moribundo – Filipa , Filipa – o braço livre arrebatava insano o conteúdo da caixa registadora enquanto a mão esquerda era compressa ineficaz sobre a chaga que descarregava catadupas carmim que pingavam o chão e tingiam a t-shirt que ,aos poucos ,começava a esquecer a sua alvura tal era a intensidade da hemorragia
“Filipa , Filipa “ era a oração da condução aos ziguezagues que evitou, sem saber como, a colisão com um monovolume do interior do qual vieram os gritos de “bêbado imundo” e o dedo irado do condutor . Mas José nem os viu . Dobrado sobre si , a escorrer aos bocados cada vez maiores, os olhos na estrada – “Filipa , Filipa” – o bairro , o choque contra o muro – “Filipa , Filipa” -ser rastejante , caracol da morte que transfigura baba em pasta de sangue enquanto desliza , a perna direita já sem forças arrastada como uma muleta , o casaco que já não pode aquecer jogado ao chão, a luz do último candeeiro alumia o torso se cobriu da pasta vermelha que escorre do fundo das suas entranhas , o cheiro nauseabundo no ar revela que os intestinos lançam pela cratera aberta pela bala a sua carga pestilenta.
Lá ao fundo a barraca imunda que pela primeira vez sentia como casa, o olhar a fugir à vida, a névoa a descer sobre o semblante .Junto ao contentor do lixo a silhueta da ceifeira acenou-lhe, com um riso estridente abriu a mão descarnada e mostrou cinco dedos. Cinco minutos, José sabia, tinha que ver a filha – “Filipa , Filipa”
A porta aberta, escancarada deixando entrar o frio da noite , o silêncio do sono tranquilo das crianças , o luto do sono toxicodependente de Maria que desfalecera no soalho imundo. José só tinha olhos para cortar a penumbra na procura da visão da menina – “Filipa , Filipa”
A visão dela, como sempre irrequieta no seu sono, o pequeno pé rebelde que fugia desde a tenra idade ao calor das cobertas, o subir e descer do peito num ritmo regular contrastavam com o arquejo aflito da tremula figura do seu pai . José sentiu-se tentado a beija-la pela ultima vez mas o frio subiu e ele entendeu que estava a viver , na verdadeira aceção da palavra, o último minuto da sua vida. Com gestos trémulos despojou sobre a mesa o espólio do assalto e, inundando da vergonha do elefante moribundo, arrastou-se para o baldio que ficava nas traseiras da barraca. Morreu entre seringas e preservativos usados, a sua face encontrou última morada a meros centímetros de uma colher carbonizada , o seu derradeiro suspiro não foi escutado por ninguém.
Quando a manhã de natal raiou Filipa abriu os olhos estremunhados, na pequena face estava plantada a mescla da curiosidade e do encanto. Quando os seus olhos se depararam com as notas espalhadas pelo chão e pela mesa o sorriso sem preço do seu rosto sem malícia rasgou-se de orelha a orelha. Afinal não tinha sonhado. Numa pausa do seu sono de criança, quando os olhos se haviam entreaberto por breves momentos a figura que avistara não era afinal criatura dos seus sonhos. O homem de vermelho viera realmente visitá-la. O pai não mentira.

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