Rage Against the Machine

Hoje vim bem para o espectáculo. Hoje tenho uma cabeça limpa que está muito revoltada com a situação. Quando a guitarra rasgada de Tom Morello trucida o riff que é feito para acordar consciências ergo-me e escuto a palavra. Porque há algo que está, profunda e globalmente errado e é preciso falar. Que seja feita “ la revolucion” na malha do baixo e na voz de Zack La Rocha. Raiva contra a máquina. Disseram um, dois ,três e lançaram ecos de rebelião para a multidão que se agita no terreiro. Contam-se pelos milhares, bandeiras de foice e martelo no ar , olhos de revolta , t-shirts de Che , mortalhas smoking , algum álcool. Hoje para mim nada . Apenas água e política.
Rage Against the Machine é ,acima de tudo ,um acto politico. Uma explosiva mistura das rimas do hip-hop com o poder das guitarras distorcidas e da secção rítmica marcada a ferro. As palavras são balas. Os milhares que se agitam frente ao palco são algo diferentes das costumeiras multidões dos concertos. Existem os que estão muito malucos mas a maioria é gente de olhares zangados com o mundo. Algo está mal. Aqueles ali , aqueles em cima do palco que saltando como loucos dizem que o inimigo usa fatos caros de fazenda em elegantes cortes de três peças e que faz da manipulação e da desinformação a sua arma . Aqueles que perguntam se nos mandarem saltarem em nome de um estado que não vela por nós o que faremos ? Saltaremos ? Ou diremos não ?
A dança dos corpos também ela difere do que costumo ver pelas plateias onde o rock e todos os seus derivados impõem a sua lei. O choque existe mas é nos voadores; é nos voadores que denoto a grande diferença. Não se esmagam contra a mole humana com o intuito de causar dor a si e aos outros ; abrem os braços antes de saltar no vazio e o voo é suave para a multidão de braços que esperam o corpo de mais um anjo do mosh. Não posso de deixar de pensar nas brincadeiras duras de soldados de um mesmo exército.
Lá em cima , a voz que fala em espanhol dos subúrbios de Los Angels pergunta porque é que os snipers só abrem fogo sobre bandidos pobres enquanto executivos levam bancos a saque e saem incólumes e sorridentes , banhados em obscenas camadas de pára-quedas dourados, pingando o sangue dos mais fracos dos homens chorosos que não sabem onde vão viver amanhã. E a voz lá em cima pergunta: Qual é o homem de boa-fé que impõe a premência do lucro à fome dos outros? Qual é o homem de paz que não é capaz de pegar em armas quando a sua liberdade, a sua dignidade e a sobrevivência dos seus é comprometida em nome de uma ordem mundial sobre a qual não pode sequer opinar.
Conhece o teu inimigo. Pensa claro. Faz as perguntas. Recusa e Resiste.
A guitarra ganha a dimensão de uma serra eléctrica que rasga a consciência. No palco diz-se: Conhece o teu inimigo.
A multidão sussurra em coro com Zack de La Rocha. Já não temos paciência . Cansados , cansados das vossas mentiras.
Tempo de revolta.
A onda que acompanha a convulsão da multidão leva-me até ao centro da roda, uma clareira , uns breves segundos e o olhar de Zack La Rocha encontra a minha camisola e a minha boina desbotada de vómitos no Avante e comícios para putas e bêbados nas travessas do bairro alto.
O braço levanta-se. A multidão escuta no silêncio ensurdecedor entre temas. O grito de batalha ecoa:
– Portugal . 25 de Abril Siempre !
Observo os punhos , as mãos fechadas ,a memória de outros tempos; há uma palavra de ordem que diz “Basta!” ; há uma fonte luminosa que ressuscita como se o vento fosse Maio e o Tejo demandasse mais firmeza às fortes gentes, vítimas dos fracos líderes que delapidam o seu ânimo e engenho. Quando o ritmo marca firme ,mas algo lentamente ,o desenrolar da rima a multidão salta. Não acompanho o movimento, rodo sobre mim mesmo e procuro aqueles que me cercam ; vejo a revolta nos rostos daqueles que não serão ,devido a nascimento e condição, a nata deste pais.
Rostos de licenciados condenados a apodrecer em balcões de bombas de gasolina enquanto distantes primos de corruptos autarcas escalam uma escada de serviço público deixando para trás um rasto imundo de incompetência. Uns óculos redondos e uma barbicha recordam-me o meu professor de filosofia e pergunto o que leva cento e vinte mil às ruas enquanto o autismo engravatado distribui computadores em nome da educação de um povo esquecendo que a figura do mestre-escola é milenarmente anterior à sua presunção de mentor do progresso.
Pergunto ao contratempo do baixo e bateria se lá fora espera o esquadrão de choque que silenciará a minha ira ? Sei que a resposta é não. Custos cortados cegamente, conveniente insegurança que é cortina de fumo para maroscas de largos milhões, lei que não passa da letra morta moldada por escribas engenhosos que protegem eternamente a mesma escória . O homem pobre apodrece nas teias de um julgamento justo que nunca mais chega enquanto condenados em tribunal sorriem em aberturas de directos televisivos cantando vitórias que enojam qualquer tentativa séria de democracia.
E o baixo continua, marca o ritmo da palavra. Não me dobro a poderes que apenas são. Recuso e resisto nesta fé. A essência primária da vontade do povo para o bem do povo que era suposto ser o nosso modo de vida.
Volto a casa em silêncio. Leio, alimento a minha mente com as palavras de Noam Chomsky , consciência dissonante com o discurso ultraliberal dos falcões da alta finança. Ao fundo da minha alma persiste a musica dos Rage , o metralhar das suas armas de intranquilidade ecoa em mim. Pouso o livro e honro a cultura de homem livre que os meus me deram. Empunho a minha arma. O poder da palavra sem baixo e bateria , sem rimas ou métricas , sem o riff da guitarra distorcida , o poder da palavra por si só. Pelo povo para o povo.

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