Jantar dos Sós

I

Esta era uma noite em que a cidade iria dormir mais tarde. Era a noite das noites e o tráfego corria apressado entre as ruas molhadas e a ansiedade da época. A rádio anunciava longas filas nas saídas para as pequenas aldeias e que já quatro haviam morrido antes de ser natal.
Numa rua da parte velha da cidade o frio e a bátega eram infrutíferas contra o vapor que se formara nas grandes vitrinas encobrindo, em circunspecção e calor, os convivas. A porta, onde uma elegante lanterna ancestral alumiava um menu que desconhecia os preços de um só dígito, abria-se ocasionalmente para deixar entrar alguém. O restaurante seria apenas mais um dos inúmeros que se espalhavam pela urbe se não tivesse a particularidade de ser o único aberto na noite de Natal. Esse inusitado horário de funcionamento criara, inicialmente, algum burburinho nos meios mais conservadores da cidade. Falara-se de pecado e de ignobilidade, de gentes de fés estranhas e hábitos indesejados. Mas, todavia, o restaurante aliava a uma gastronomia refinada um cumprimento escrupuloso de todas as leis do país e do município pelo que ninguém pode impedir que ,na noite mais santa das noites ,a chaminé continuasse a fumegar largando pela vizinhança o aroma de açafrões de outras paragens e da mestria do chefe. Então , estando vazias de argumento a lei e a ordem , restou aos habitantes da cidade vilipendiar os comensais que não cumpriam o massivo ritual da família e do peru . Risos de escárnio haviam baptizado o evento de “Jantar dos sós”. Havia-se urdido, às mesas dos normais, que era lugar de gente sem família, de loucos , de amantes do mesmo género e de adoradores do demo. Que decerto conscritos da indecência se sentavam aquelas mesas cobertas do mais branco linho que terminava, com uma elegância voluptuosa, a exactos dois centímetros do soalho de madeira antiga onde os passos dos garções ecoavam como prelúdios da sonata que o serviço de prata maciça entoaria retalhando as exclusivas criações de um chefe cujo nome tinha a pronúncia das grandes delícias do oriente longínquo onde o Cristo nado esta noite não era adorado. Invejados eram os homens e mulheres que se sentavam aquelas mesas onde a fragrância do vinho ancestral pairava entre a porcelana e as narinas. Uma maré forte feita do suor e do amor dos homens e mulheres , há tantos mortos , que haviam vindimado , pisado , feito sangue de Cristo aquelas uvas .Crisálidas do palato que convidavam as bocas a serem meigas e lentas em redor do bocal e da deglutição. A maledicência que se proferia sobre aquele restaurante tinha, todavia, alguns fundamentos. Num canto, numa mesa discreta sobre a sombra e um velho óleo de um mestre holandês, os olhos serenos de dois amantes terminais dançavam o tango do adeus. Dois homens, outrora belos agora carcomidos pelo vírus, afagavam com o néctar das vinhas da Nova Zelândia o sabor dos láudanos que aliviam as dores. Em outra mesa a amante secreta do ministro engolia o prato mais caro com a voracidade das putas de rua , à sua frente o lugar estava vazio.
As conversações tinham-se em tom baixo , como se as palavras não quisessem ir mais altas que a chama que ardia no topo dos candelabros .Escutavam-se vários idiomas , a seda e o negro predominavam entre os ocupantes do restaurante. O espaço não era de grandes dimensões mas combatera o acanho do solo com o esplendor do pé alto onde um magnificente lustre de cristal vianense brilhava como um olho de uma dama que apenas revela uma pequena parte do seu fulgor. As paredes estavam cobertas de pinturas. Os óleos predominavam, a espaços uma peça mais moderna dizia aos que estavam sentados entre o linho e o veludo que a arte era bem-vinda aquela casa. Talvez fosse por isso que o mais ilustre escultor da cidade elegera o espaço para a sua noite sem azevinho e presépio. Velho , decrépito , tremores de Parkinson que o faziam viver apenas da fama pois a sua arte ,o seu punho guiado pelo fantasma do grande mestre , havia parado. Isso enlouquecera-o, fizera-o envelhecer como a folha de papel que não recebe a palavra e acaba por definhar em esquecimento. As ideias, as ideais que o assolavam incessantemente e as malditas musas maléficas que lhe relembravam quem não podia voltar a ser através de um punho em eterna convulsão . Compensara isso com o mais debochado aproveitamento das admiradoras do sexo feminino. Mulheres que acreditavam que seus corpos tonificados mereciam a goiva. Mulheres que eram belas até ao excesso, tal como a companheira do escultor nesta noite, onde nada de santo e sagrado pairava pela alma atormentada do artista. A mente pedia que o recorte perfeito das linhas da jovem mulher fosse eternizado na pedra, a baba que escorria ao canto da boca orava a um deus qualquer que lhe desse um bocado de tesão esta noite.
Encontrava-se vago o lugar de topo da mesa de onde estavam sentados os quatro homens. Uma primeira rodada de aperitivos era acariciada com alguma impaciência pelas falanges que envolviam os cristais. Decerto quem esperavam era alguém importante. Ou talvez apenas tivessem fome.
A posição da mesa, junto à enorme lareira onde um fogo reconfortante ardia , dava especial destaque às silhuetas das quatro figuras. Quem entrasse pela porta principal, decerto seria atraído pela imagem, algo demoníaca, de quatro vultos negros sobre a parede de chamas. De uma área reservada, no canto oposto ao dos pederastas , da mesa ocupada exclusivamente por homens de trajes antigos e barbas fora de moda escutou-se a saudação dos Riedel e a troca de votos de vida longa aos cavaleiros de uma ordem há muito extinta. Os risos e a bazófia dos hereges despertaram leves sorrisos em dois dos homens da mesa que esperava alguém.
No exterior o silêncio da rua foi entrecortado por um táxi que levava um coração aflito às urgências hospitalares. Poucos minutos depois a noite silenciosa foi rasgada pelo som dos cascos.
A invulgar aparição de dois negríssimos corcéis que puxavam uma carruagem, onde o cetim das madeiras brilhava mais intenso que o negrume da noite ,não foi vista por ninguém. Nenhum dos vizinhos assomou à janela, tão entretidos que estavam com o especial televisivo e a algazarra das crianças, para vislumbrar o trote elegante dos alazões, o troar do longo chicote empunhado pelo cocheiro embuçado.
Um puxão forte nas rédeas deteve os cavalos junto à porta do restaurante. Sem revelar um centímetro do seu rosto o cocheiro desceu de seu assento e abriu a porta; dois degraus retrácteis esticaram-se em direcção à calçada. O primeiro deles foi pisado pelo altíssimo tacão de um sapato de mulher , o tornozelo que o usava era belíssimo , uma longa capa onde o arminho era exibido sem pudor encobria o resto do corpo e o rosto da figura feminina que, lestamente ,entrou no restaurante. A cartola do porteiro descobriu-se com a naturalidade que a nobreza do passo da mulher obrigava. Uma mão, onde algumas rugas faziam conjunto com um anel brasonado cujos quilates e delicado cunho atestavam ser de longa linhagem, estendeu-se para que o empregado pudesse recolher o agasalho. O intolerável som do silêncio invadiu a sala de jantar quando a porta se abriu e a delgada e alta figura da mulher se perfilou na ombreira. Dezenas de olhos, escravizados pelo magnetismo do longo vestido negro colado ao corpo ainda extraordinariamente firme e esbelto da mulher de enormes olhos verdes , prestaram a vassalagem que a sua beleza imperava . O passo fazia balouçar ligeiramente os seios e as ancas. A justeza do vestido e a delicadeza do tecido não apresentavam qualquer traço revelador de roupa íntima. O enorme decote, que terminava num vale generoso era adornado por uma enorme corrente de ouro onde uma esmeralda fulgurante trespassava o pasmo dos comensais como se de um terceiro olho se tratasse. Ao fundo da sala, junto ao fogo, os quatro homens que esperavam levantaram-se e compuseram os casacos. O gesto de respeito acentuou-se quando as quatro cabeças se inclinaram ligeiramente.
A luz rubescente do fogo revelou que o rosto da recém-chegada já há muito passara a juventude e que aceitara o cair das rugas com uma firmeza na postura que a autenticava com a palavra “Senhora “ que ecoou das gargantas dos homens que haviam, intranquilamente, aguardado pela sua presença. Um pequena pausa fez-se até que o empregado completasse o gesto de a sentar à cabeceira da mesa .Depois os rostos permitiram-se a encará-la; e que belos eram os rostos dos homens que saudavam a mulher mais velha que se sentara no lugar de honra.

II

Sem proferir uma única palavra, com um sorriso irónico e misterioso, ela encarou, um por um , aqueles que a haviam aguardado. A rigidez dos ombros e o comprimento do pescoço davam especial relevo ao ritual de encarar firmemente cada um dos seus companheiros e ,em seguida, inclinar o queixo em jeito de assentimento. O gesto tinha a duração exacta do agradecimento a um acto de vassalagem.
Eram todos mais jovens. Visivelmente mais jovens. Quatro variações de uma palidez que tanto trazia de mau prenúncio como da resplandecência marmórea das estátuas gregas. Os caprichos do fogo e da luz que dançavam na grande lareira presenteavam a anfitriã com a lisura que ainda existia nos seus rostos. Excepto um. Aquele cujo cabelo era desgrenhado e rebelde, a esse sulcava o rosto uma longa cicatriz cuja extensão e fundura do corte mostravam que quem golpeara a face esguia, onde predominavam uns olhos verdes plenos de astúcia e traição, odiava profundamente. À sua esquerda os largos ombros do mais atlético homem do grupo. O pescoço largo e a enorme proeminência do maxilar inferior tinham o formato que as câmaras do cinema de acção apreciam. Envergava um nada discreto fato claro que destoava com o negrume das vestes dos restantes ocupantes da mesa. Os olhos da anfitriã censuraram-no, um pequeno toque dos lábios em que era óbvio o comentário ao mau gosto do atleta.
O cerimonial silencioso foi interrompido pela chegada, junto à cabeceira da mesa, de Amir. Um quase imperceptível burburinho atravessou a sala. A presença do famoso dono do restaurante na sala era , sabiam todos os que conheciam aquele local , privilégio dos mais afortunados; dos grandes “gourmets” que atravessavam quilómetros , por vezes mesmo as fronteiras do pais , para chegar junto aos repastos que haviam granjeado tal fama à cozinha de Amir. Este inclinou-se respeitosamente numa vénia que tanto tinha de teatral como de costume do seu país longínquo. Um amplo gesto de cortesia do homem que envergava uma jaleca de cozinheiro e um garrido turbante. Os olhos de imenso azul eram contrastantes com o trigueiro profundo da sua pele e os traços de corsário malaio. Saudou:
– Minha senhora, distintos cavalheiros. Amir agradece a preferência dada à nossa humilde oficina dos sabores. Poderei sugerir, a vossas senhorias, uma entrada de delicadíssimos cogumelos Matsutake seguidos de fresquíssimas trutas em cama de amêndoas?
Foi evidente a repulsa sentida pelo homem mais velho do grupo. As farripas iniciais que lhe visitavam a fronte em forma de cinzenta prata indicavam que teria entre os trinta e os trinta cinco anos. O seu esgar foi acompanhado pelo riso quase feminino do homem que menos o parecia daqueles quatro. Os olhos enormes, onde o cinzento imperava ,estavam delineados a traço negro. O brilho dos lábios revelava alguma cosmética e as roupas de sede e cabedal reforçavam a androginia daquele que era decerto o mais jovem de todos . A mulher ao topo da mesa sorriu ligeiramente e encarou Amir. Com uma voz forte declinou a oferta .O dono do restaurante foi , por um milésimo de segundo, cegado pelo brilho da pedra preciosa dependurada no pescoço da mulher. Recuou um inquieto passo acatando a ordem:
– Apenas as carnes mais sanguinolentas e o vinho mais espesso e generoso de vossa adega.
Foram lestos os homens de Amir a cumprir tal desejo. Fumegantes, cheirando ainda à madeira onde haviam ardido e à carícia com as especiarias haviam sido aplicadas, as iguarias chegaram em travessas de prata . O jantar daqueles cinco decorreu em quase absoluto silêncio, as frases trocadas em sussurro eram imperceptíveis, os copos de cristal tocaram-se algumas vezes. Quando o grande relógio de pé, que ocupava lugar de destaque junto a uma das colunas que sustinha o alto tecto, bateu as dez e meia uma intranquilidade invadiu os gestos de alguns elementos da mesa. A maquilhagem foi retocada, os dedos passaram duas vezes pelas têmporas grisalhas em penteares nervosos. A mulher ao topo apercebeu-se da inquietação e sussurrou algo apontando na direcção do relógio.
Ainda a sobremesa não tinha sido servida quando, sem aviso prévio, a mulher se levantou. A azáfama vexada dos empregados foi serenada com o empunhar de uma larga quantidade de notas. O cortejo encabeçado pela bela mulher atravessou a porta principal e entrou no átrio de entrada quando a primeira badalada das onze ecoava nas torres da cidade.
Os agasalhos foram recolhidos e ,mais uma vez, a generosidade de senhora demonstrada. Quando o tacão elegante tocou o pavimento da rua a carruagem, que anteriormente a havia transportado, surgiu em trote moderado. O porteiro do restaurante embasbacou-se, amaldiçoou o vinho e o seu vício. Estava quase capaz de jurar que os cavalos haviam surgido da sombra que ficava numa ruela próxima e que os seus olhos haviam brilhado de fogo quando iniciaram a viragem para a frente do restaurante.
A moeda que lhe aterrou na luva estendida era pesada e granjeou-lhe auto censura por ter tido tais ideias de gente tão requintada. Todavia, quando levantou a cabeça para agradecer, a carruagem e os seus cinco ocupantes haviam desaparecido do seu campo de visão. Desta vez o porteiro teceu pragas à idade que o começava a fazer perder qualidades. Não havia escutado o galope dos alazões negros.

III

Ainda o pasmo do porteiro persistia, em pequenas réstias de assombro, e já os eixos das rodas do landó calcorreavam os paralelepípedos de uma avenida antiga. Um grande passeadoiro, onde outrora senhores de casaco negro e damas de chapéu caminhavam de braço dado nas tardes de primavera , que perdera o seu fulgor ; ao fundo o edifício da antiga estação de caminhos-de-ferro.
O cocheiro , dobrado sobre si , era lesto no uso do chicote que mantinha o galope dos cavalos .Dentro da carruagem os semblantes eram pesados, sombras cada vez mais negras alojavam-se nos rostos que haviam parecido joviais umas horas antes. A tensão adquirira agora um silêncio tenso feito de rápidos cruzamentos de impaciências e consultas frequentes aos relógios. Apenas a mulher mantinha a mesma serenidade que conduzira a sua postura ao longo do serão. Lá fora a carruagem derrapou um pouco sobre a superfície molhada dos carris. Um puxão firme da rédea direita fez com que a trajectória fosse corrigida, uma chispa soltou-se dos rodados.

Dois vagabundos que vasculhavam os contentores sentiram um vento frio e, quando se voltaram ,foram surpreendidos pelo negro veículo que cruzava a estrada com um ruído ensurdecedor. Eram velhos os mendigos, tiveram medo . O mais sensato entre eles disse:
– Vamos embora. Ali não vai coisa boa.
O outro, movendo-se com dificuldade sobre uma muleta improvisada, relembrou-se do gesto da cruz e aquiesceu a ideia.

No escuro habitáculo da carruagem aquele que apresentava o rosto sulcado pelo gume perdera toda a compostura. Os olhos verdes eram um poço efervescente de ira. Dirigiu-se com veemência à mulher:
– Dê-nos agora ! Por favor! Um pouco !
Dito isto a mão dirigiu-se ao interior das coxas da mulher. Procurou afastar as pernas. As unhas longas da mão que envergava o anel brasonado golpearam a insolência deixando mais uma marca na pele do atrevido mancebo. A voz ordenou, intolerante, indiscutível.
– Ainda não é chegada a hora , nem o local !
A cabeça virou-se lesta em direcção ao exterior, o olhar fixou-se na longínqua torre da catedral:
– Ainda há tempo – Em seguida fez soar duas vigorosas pancadas no tecto forrado a cabedal. De imediato o cocheiro acatou a ordem levando os corações dos corcéis ao limite do esforço. Pelas bocas das bestas espumava a pressa que a mulher impusera ao seu condutor. O chicote já não conhecia descanso. Os raios das rodas eram apenas borrões de negro rápido.

No horizonte, cada vez maior, cada vez mais perto , o edifício da estação . Uma glória da cidade que havia sido recentemente encerrada para dar lugar a um terminal mais jovem mas certamente menos imponente e mais vazio das memórias dos homens. O vapor calara-se, as azáfamas dos bagagistas haviam cessado, o apito que anunciava a marcha da locomotiva havia sido esquecido. Junto ao grande arco da porta principal já não surgiam os vultos dos passageiros, de rosto coberto de fuligem, que iam a descanso e banhos ao agora quase extinto esplendor do hotel que ficava do outro lado da grande praça. A carruagem deu a volta e deteve a sua marcha junto à porta rotativa. No interior os globos dos candeeiros estavam velhos e sujos e iluminavam o átrio de forma deficiente. A alcatifa estava gasta. O mármore do balcão da recepção há muito que não era polido. O bronze da placa que anunciavam a existência de televisão a cores no salão de hóspedes havia ganho verdete com o descuido dos funcionários e as voltas do tempo.

Por detrás do balcão a figura grisalha, que envergava uma sobrecasaca verde, sobressaltou-se pelos dois momentos distintos que a sua mente percepcionou. Como se o tempo entre dois actos não tivesse acontecido. Pestanejou com vigor, como querendo devolver a si a percepção da lógica dos movimentos. Entre o momento de paragem do landó e o surgimento no lobby do hotel do grupo liderado pela mulher, que aparentava bastante idade nas profundas rugas e nos olhos que ganhavam a vermelhidão dos moribundos, apenas um breve milésimo de segundo havia decorrido. Atrás da figura matriarcal quatro homens cujos rostos eram máscaras de ansiedade cobertas em suor. Os seus peitos arfavam. Os punhos cerrados demonstravam que nada deteria a sua marcha.

O recepcionista estava no hotel há muito tempo , tudo vira enquanto estendia as chaves aos hóspedes e sorria uma boa-noite que por vezes não o era. Vira ministros enfurecidos após a perca de uma eleição desfazerem à cintada as nádegas das coristas , os vultos que haviam caído dos andares mais altos e deixado manchas de desespero no passeio, homens que amavam o cheiro do charuto e da urina das prostitutas baratas. Distintas senhoras de sociedade que faziam das suítes do hotel as alcovas onde os arruaceiros urravam que elas eram grandes vadias. Houvera, também, tempos do esplendor .Quando as locomotivas enchiam o terreiro com as suas sonoras chegadas por aqueles corredores e quartos com água quente haviam passado glórias da cidade. Presidentes e senhores embaixadores, o ministro da guerra antes da mesma começar. Dormira ali o homem que venceu a maratona, havia mostrado com orgulho o ouro olímpico da varanda que ficava sobre a porta principal. Uma multidão enorme atirara os chapéus ao ar. Na suíte real o maestro fizera um violino calar todas as pedras do terminal ferroviário. Os êmbolos haviam amansado o seu trepidar, os maquinistas as suas obscenidades. Da janela do seu aposento o virtuoso dedilhava com mestria todo o ar da grande gare.
A sua experiência feita da ascensão e queda daquele estabelecimento identificou rapidamente os hóspedes. Tipo problemático. “Despachar” – disse a si mesmo. Estendeu a chave e não deu especial importância ao preenchimento de qualquer formulário. Também não deu especial relevo às insinuações que poderiam surgir ao que fariam quatro homens e uma mulher numa suíte de hotel em plena noite de natal. Com um sorriso encolheu os ombros. Já tudo vira.Só esperava que não sujassem muito o quarto pois às mulheres da limpeza, que chegariam pela manhã, iriam decerto pesar as varizes e os abusos da consoada.

No elevador, o último da cidade que era operado por mão serviente, perfilhava-se a figura do ascensorista. Seu nome já era parte do mecanismo de roldanas e pesos que transportava, piso acima piso abaixo, a pesada cabine metálica onde as portas gradeadas se abriam e fechavam ao toque de uma alavanca. Ao canto , o homem que contava por décadas o tempo que manobrava a máquina , o ascensor como outrora o haviam chamado ,recebia os hóspedes com um sorriso e um interrogação sobre o seu destino. Quando o grupo entrou engoliu em seco. As suas já fracas pernas tremeram um pouco. Encostou a anca sobre a parede da cabina a fim de acautelar a lassidão que sentia nos joelhos. A força era cada vez menos. Na verdade o ascensorista morria ali e estava ciente do facto. Quando lhe havia sido anunciada a doença fatal limitara-se a escutar em silêncio e a pensar que não tinha sítio para ir morrer em braços amigos. Só conhecia o canto do elevador onde toda uma vida decorrera em farda de paquete, que o tempo tornara coçada e patética, operando com a destreza de um símio amestrado o manípulo . No dia em que soubera que estava a morrer o ascensorista apresentara-se ao serviço como era seu hábito. Fez duas moedas e uma nota de gorjeta.
Agora, embora a sua condição fosse já muito débil, sentia que nos bafejos daqueles cinco seres havia algo que aspirava dos aflitos alvéolos pulmonares sérias réstias de existência. Aqueles que iam ao sexto piso ignoravam o rosto pálido cada vez mais similar ao linho da mortalha, o tremor dos lábios, as farripas de cabelo eriçadas . Todos o ignoravam, excepto aquele que usava coisas de mulher. Esse contemplava-o com um gozo mórbido pespegado na expressão. O ascensorista sentiu-se incomodado. O homem que tinha os olhos pintados não desviou ao olhar. Quando chegaram ao andar de destino o homem que operava o ascensor sentiu necessidade de desculpar-se ao hóspede pelo seu paupérrimo estado. Disse com os olhos cravados no chão:
– Não posso viver para sempre.
As mãos cuidadas, onde o verniz negro engalanava finos dedos cobertos de anéis, levantaram o rosto do ascensorista e beijaram com ternura os lábios que já pouca vida tinham. A mão acariciou o rosto, as unhas incomodaram a face . O velho sentiu um ligeiro ardor. O homem jovem despediu-se:
– Não queiras. Feliz Natal !
Quando se preparava para sair revirou a cabeça e o ascensorista horrorizou-se ao verificar que, nos breves instantes que haviam decorrido, o rosto envelhecera mais de uma década. A maquilhagem esborratava-se no rosto, as pálpebras pendiam pesadas , uma papada formara-se debaixo do queixo onde um tremor persistia. A voz mantinha-se fina mas tinha agora a enfatuação dos cabarés e das noites de absinto. Zombou:
– Este é o teu último.

Em seguida a porta do alojamento fechou-se com incrível violência. Caminharam até à sala. A mulher ao centro. Um circulo de cinco rostos onde a carência aflitiva tomava a forma de um envelhecimento brutal a cada segundo que passava.
As mãos da mulher tocaram a jóia que trazia ao pescoço. Algo foi murmurado. Em seguida o seu rosto que se aproximava a passos lestos do estado da decomposição ergueu-se e proferiu:

Centrum est obscurus. Tenebrae respiratus

A mão dirigiu-se à presilha do vestido e este escorregou em direcção ao soalho . A queda do negro pano exibia um corpo que contrastava em firmeza e juventude com o rosto daquela que começava, aos poucos, a abandonar a sua condição humana.
Os homens corresponderam ao gesto removendo as vestimentas e aninhando-se no chão em posição fetal. Das suas gargantas começou a sair uma estranha ladainha, uma canção de embalar de um idioma que se falava nas entranhas da terra.
As mãos da mulher, onde as unhas começavam a contorcer-se em garras , acompanharam as linhas perfeitas da sua própria silhueta. Deslizaram ao longo da curva das ancas ,cuja largura denotava o conhecimento das coisas da maternidade, antes de dirigirem ao triangulo negro e violentamente afastarem os lábios do seu sexo . Invocou:

Orior , Oriri , Ortus

Das profundezas do seu íntimo surgiram quatro tentáculos, quatro extensões da mulher que, de braços estendidos ao céu, fazia o fogo eclodir na lareira da suíte e as lâmpadas de todo o quarteirão explodirem. As membranas , feitas de uma carne há muito morta , atravessaram a carpete como se de víboras translúcidas se tratassem. Cravaram-se com violência nos umbigos dos homens prostrados no solo. O urro que ecoou nas suas gargantas era de tal forma animalesco que os cães vadios que faziam da velha gare seu covil fugiram apavorados.

Quando as carnes dos tentáculos se fundiram com as carnes dos homens uma massa viscosa, sangue dos malditos ,cheiro fétido feito das muitas mortes violentas que o compunham ,deslizou do interior da criatura que se metamorfoseava em alado pavor e alimentou os seus demoníacos filhos.

A hiper-dilatação das íris cobria de um integral negro a cavidade ocular , as fauces haviam se estendido para dar espaço ao florescer dos aguçados caninos. Theofania Delasombra , Rainha dos Callicantzari mirava com orgulho o renascer da sua linhagem. No solo os homens que haviam sido belos davam lugar às quatro aberrações que em breve saciariam a sua fome de um ano inteiro. Reclusos das grutas negras onde a sua maldição os obrigava a subsistirem com os restos cada vez mais putrefactos do banquete do natal anterior. Na torre da grande catedral o sino caminhava as doze badaladas para o nascimento do Cristo que não salvaria muita da gente daquela cidade.

Os tentáculos desvaneceram-se consumidos pelos restos ácidos da cataplasma que Theofania fizera brotar de dentro de si. As janelas abriram-se. Como crianças esfaimadas os quatro monstros voaram para a escuridão da noite. A matriarca dos comedores de homens observou ,orgulhosa, o voo da sua prole. Dividiram-se em dois grupos. O primeiro afastou-se em direcção às zonas mais povoadas da cidade, o segundo par iniciou o mergulho sobre a multidão que se concentrava junto à grande catedral para assistir à missa do galo. O seu banquete foi luxuriante.

No alto do telhado da grande estação de comboios Theofania estendia as suas longas orelhas de morcego embevecendo-se dos horrores que seus filhos semeavam pela cidade. Os gritos eram imensos , velhos , homens feitos e tenros infantes , todos pereciam às mandíbulas vorazes dos Callicantzari.

A grande vampira aspirou o ar da noite. Era a sua vez de se alimentar.
As fossas nasais alargaram-se, entre as enormes presas uma língua bífida acariciou a boca; havia detectado um cheiro que lhe agradava particularmente. Perscrutou o horizonte, farejando, as orelhas atentas ao ruído que procurava associar ao seu instinto olfactivo. Então os seus olhos encontraram o seu destino. Ao fundo, a alguns quarteirões de distância, brilhavam as luzes da maior maternidade da cidade. Salivou um pouco mais quando ao seu aguçado escutar chegaram os ruídos que vinham do berçário.

IV

Fome.

A sofreguidão da horrenda Theofania Delasombra atravessou o frio da noite. As chaminés emitiam o fumo do aconchego. No ar os aromas da refeição dos pacatos cidadãos misturava-se com o odor a talco e os ruídos pequeninos que ocasionalmente ecoavam no berçário. A rainha dos Callicantzari incomodou-se com a perturbação que os restos do peru e os fritos traziam ao seu olfacto maravilhado nas fragrâncias das peles lisas e tenras que se agitavam no sono dos primeiros dias de vida. As suas presas entreabrirem-se para proferir uma obscenidade que só o demónio entendia. Sacudindo as asas negras cerrou os olhos e inclinou a cabeça para trás. Os longos cabelos escorriam iluminados pelo céu onde a lua persistia em alumiar tão nefasta criatura. As narinas abertas contorciam-se perante a predição da abundância das jovens presas que estavam a curtos minutos de voo. A bífida língua acariciava as fauces, Theofania agachou-se no preparo do salto para o vazio, o enfunar das asas efectuou-se numa velocidade cerimonial.
A necessidade não apressava os gestos da morte alada que iniciou a carga sobre a casa de Deméter.

Fome.

O mais pequeno, aquele que havia nascido antes do tempo ser tempo de vida , agitou-se um pouco na incubadora. Os olhos verdes , raiados do sangue da vigília e do cansaço dos anos de Zana Glastings procuraram o relógio que estava sobre a porta da sala onde as crianças dormiam. Eram três , um deles precisava de especial atenção. Estava com fome.
A forma como a sonda foi ministrada para encher o pequeno estômago de pele ténue demonstrava o longo saber feito a cuidar dos outros. Após a refeição a mão enrugada de Zana invadiu o espaço interior da incubadora para afagar o bebé. Os movimentos dos pequenos pés demonstravam que tinha cócegas na barriga. A velha enfermeira sorriu.
Em seguida passou junto aos restantes berços ocupados para acautelar o aninho da coberta. Os seus pés, que não faziam qualquer ruído sobre o solo de cerâmica, detiveram-se contemplando a cidade que se estendia em todo o redor das janelas panorâmicas do piso. Zana gostava daquele local de dia , do sol a inundar de luz e calor as fileiras do berçário. Todavia a noite sempre a inquietara. Recordava-se muitas vezes da Velha e das coisas que com ela aprendera. Antes da guerra, quando ainda as rosáceas das suas faces redondas e bem-dispostas se estendiam crentes no bem dos homens.
Todavia viera uma nação hostil , os homens haviam sido chamados aos campos de peleja, novas armas abriram clareiras de vida entre as tropas de infantaria. O homem de Zana morrera entre tantos outros que seus nomes foram rapidamente esquecidos na azáfama de matar o próximo.

A Velha e a Guerra haviam sido os momentos cruciais da existência já sexagenária de Zana Glastings. Enfermeira de campanha condecorada com a maior distinção que se pode dar a uma não combatente. Ela todas as noites recordava o dia . O dia da bravura, o dia em que usara seriamente pela primeira vez as coisas que a Velha lhe ensinara, o dia em que o medo a fez correr para a terra de ninguém ao resgate do capitão de lanceiros que gritava por ajuda e por deus perante a visão e a dor dos seus membros amputados . Uma metralhadora cobria a zona. O barulho das carnes dos mortos, retraçadas inúmeras vezes pela munição de elevado calibre, fazia lembrar uma chuva de pingos malévolos . Zana correu , os seus largos ombros de mulher de trabalho haviam erguido com facilidade o desmembrado oficial. A cabo-socorrista Glastings iniciou a marcha de regresso às suas fileiras quando a metralhadora se calou por um instante. Os olhos de Zana esbugalharam-se de horror . O artilheiro fazia pontaria a ela. Estava a passos de ser dilacerada pelo fogo dos canos rotativos. Então falou uma das lengalengas que a Velha lhe havia ensinado nas noites onde o luar inexistente ocultava os sussurros da anciã e o olhar atento e reverente da sua discípula.
A língua era a dos antigos , o chamamento à protecção de uma entidade cujo nome já não habitava as rezas dos homens. Na sua agonia o capitão de lanceiros percepcionou algo que julgou ser fruto da dor intolerável que lhe pingava das rótulas mas, quando a fila de balas entrou na arma inimiga e o chumbo foi cuspido , o oficial percebeu, pelos ruídos do ricochete na aura de luz lilás que cobria todo o corpo de Zana e sua carga , que estava a ser salvo por algo maior do que aquela socorrista corajosa que persistia na seu caminho de regresso.
Quando , já na trincheira cheia de homens de suas fardas , Zana pousou o oficial este teve a clara percepção que iria viver e que necessitava , para todos os dias que lhe restavam , de agradecer esse facto ao Deus que cuidava do seu lado do mundo. Para lá das lancinantes dores que o trespassavam a percepção e a fé que tinha estado aos ombros de uma enviada de algo bom confirmaram-se quando seus olhos se encontraram. Havia algo a brilhar no fundo das pupilas de Zana , o quase moribundo lanceiro agarrou-se à centelha e sobreviveu. Voltou a casa, cuidou dos seus .

Uma prece aos protectores saiu dos lábios de Zana quando avistou a criatura alada que se aproximava. As longas asas , a Velha falara-lhe do que ali vinha. A enfermeira recuou dois passos. Hesitou um breve instante, na sua mente a recordação do conhecimento das fraquezas do inimigo demoníaco e aflição pelos pequenos estrangularam-lhe a garganta. A voz dentro de si disse:

– Chão sagrado

Zana estendeu os braços e com gestos rápidos , quiçá demasiado bruscos para a sua idade , abraçou as duas crianças que dormiam sonos não assistidos e correu pelo corredor em direcção à capela da maternidade. A cabeça virou-se algumas vezes , o prematuro ainda ficara no berçário. Estava à mercê da fome da Callicantzaro.

No céu a vampira distinguira movimento no berçário. No seu olfacto a delicadeza das carnes da criança apressou o bater das asas.
Zana pousou com brusquidão os meninos no solo da capela e retomou a corrida desesperada ,agora em direcção oposta. De volta ao berçário onde a horrorosa criatura assomava. O focinho roçou a janela, os seios da fêmea esmagaram-se e dos seus mamilos uma cataplasma negra escorreu pelo vidro. Em seguida entrou. No mesmo instante a porta dupla escancarou-se, Zana prostrou-se do outro lado da sala . Os seus olhos percorreram em palpitações milimétricas de pavor o espaço a meia luz. Sobre uma mesa alguém erguera um presépio, uma vela ardia a seu lado. As coisas que a Velha ensinara precipitaram Zana para o objecto ardente e ,em seguida, para a pequena estufa onde a criança era mantida em cuidado. Um gesto apressado abriu a tampa, a chama pousou sobre a planta do pé direito do bebé. O grito de dor foi imenso , Zana lembrou-se dos gritos do capitão de lanceiros e, tal como outrora, sabia que não podia parar. Dirigiu a tortura de fogo para o outro pé.
Entre as fileiras de berços garganteou o guincho de raiva de Theofania Delasombra . De novo transfigurada, agora algo que se assemelhava a uma mulher de linhas generosas onde todo o corpo estava coberto de uma imunda pelagem negra. Os olhos famintos, raivosos ; a boca escancarada onde os caninos salientes sabiam que não poderiam morder a criança. A mulher velha junto à maquina sabia das debilidades da raça Callicantzari . Injuriada , sequiosa de vingança ,a vampira caminhou rapidamente entre as camas vazias , os cascos onde terminavam suas pernas ecoavam por todo o berçário.
A mulher com uniforme branco e touca estendeu o braço. A marcha da Theofania deteve-se . O braço estendido, o gesto da cruz. A vampira reconheceu os gestos do inimigo.As hordas que , desde os confins do tempo , se digladiavam com a sua espécie .As guardiãs dos homens que patrulhavam a noite tentando travar os intentos dos grandes predadores alados. Anatematizou a linhagem de Zana e das anciãs.

A enfermeira transferiu o queimamento para as pequenas mãos contorcidas em dor. O braço que se estendia em direcção à devoradora de inocentes rodopiou no sentido em que o mundo gira. A voz da Velha falou pelos lábios de Zana. Sabia a oração de guerra dos homens da fé . A dor das palavras sagradas feriu os ouvidos de Theofania:

– Exorcizamus te, omnis immundus spiritus, omnis satanica potestas, omnis incursio infernalis adversarii

A investida da vampira deteve-se pelos instantes suficientes ao fecho do círculo ritual de Zana. As chagas chamuscadas nas mãos e pés da criança tornavam-na imune à sofreguidão da rainha dos Callicantzari. A velha enfermeira sabia que os seus dons e as rezas que a Velha lhe ensinara não eram suficientes para deter eternamente a fúria demoníaca. Sabia que ia morrer, sabia que a criança prevaleceria.

Lembrou os tempos da guerra, lembrou-se do capitão de lanceiros. Sorriu quando viu a face da Velha a pairar no ar e calculou que salvara duas vidas ao longo da sua existência . Preparou-se para o instante derradeiro.
Theofania desfraldou as garras longas da sua mão e , num golpe de cutelo, trespassou o esterno de Zana. O rasgar do osso , a firmeza do gesto indicavam que o monstro procurava o coração da velha. Enterrada até ao pulso a manápula da criatura da noite vasculhou as entranhas ainda vivas de Zana. Esta soube a dor que o capitão havia sentido.
Então a Callicantzaro encontrou o que palpitava.
E sentiu a dor que não antecipava. A luz veio dos últimos batimentos do coração de Zana. Alastrou-se, uma monção de dor e petrificação trepou pelo braço da assassina. A luz tinha o fogo azul-cobalto da arma do Arcanjo. Os gritos de Theofania Delasombra eram os de um animal raivoso que via uma das suas extremidades arder e tombar em cinza sobre o soalho. A corrosão apenas terminou por altura do ombro, a perplexidade inundou , pela primeira vez em séculos , o rosto da rainha vampira quando , indo buscar forças a algo que já pairava a caminho dos céus, o braço de Zana lhe agarrou o pescoço e puxou o rosto da besta para junto das rugas onde a lividez se estendia como uma cortina de fim . Zana Glastings bafejou uma nuvem de luz e morreu . O rosto de Theofania desfigurou-se quando o último suspiro da velha calcinou até ao osso as carnes, a fauce mista de mulher e morcego ganhou feições ainda mais medonhas. A vaidade de mulher que ainda restava a Theofania humilhou-a no grito de retirada que ecoou pelos telhados das casas onde os Callicantzari prosseguiam a caçada. O bando retirou para as entranhas das cavernas que ficam no mais fundo da terra, a fome de Theofania seria imensa , as chagas abertas empolgariam o apetite dos outros vampiros.

O corpo de Zana desfaleceu junto à incubadora. Por desígnio das sortes as suas mãos terminaram o movimento junto ao bebé.
Quando a descobriram na manhã seguinte a respiração serena da criança pousava na concha das mãos de Zana. O raiar do primeiro sorriso atravessava o pequeno rosto.
Na cidade a nova correu as ruas, entre as lamúrias dos mortos e os gritos daqueles que nunca esqueceriam o horror, ouviu-se dizer que o menino estava bem. Que o mal que viera da noite não perturbara o seu sono. Que alguém bravo tombara por ele.

Naquela manhã, que ainda assim era Natal , os passos dos homens da cidade foram mais serenos. As mãos dos sobreviventes apertavam-se mais fortes umas nas outras. Os chapéus dos mendigos encheram-se de moedas e as missas estiveram cheias até à porta. Na mais antiga igreja da cidade, uma família entrou já o padre iniciara a oração. Em silêncio os fiéis contemplaram o fervor no olhar do homem que liderava o pequeno grupo que atravessava a nave. No absoluto recato que precede as palavras da salvação apenas se escutava o chiar das rodas da cadeira do capitão de lanceiros.

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