Leonardo

Leonardo está apavorado. Sabe.

Eles , os colegas , também parecem pressentir a vergonha que se anuncia. Seus olhares dedicam meio ciclo do processador de índices de mercado à busca de sinais de enfraquecimento do homem cujo o tremor sobre o teclado é , facto raro , de origem não opiácea .Convulsões que deitam pelo ar gelado da sala de transações uma eletricidade que parece querer sempre mais do amontoado de homens que não conhecem outra forma de vida que a inquieta existência do deve e do haver .

Leonardo sabe e um medo profundo invade-lhe as entranhas.

Um ansiolítico para parecer mais sereno ou uma linha para denunciar mais proatividade carnívora sobre os portfolios?

Leonardo duvida de si mesmo. Os seus números são péssimos. Se esta sessão não for a criadora de um milagre espera por ele o calvário da demissão.
Os colegas sentem a presença moribunda do homem que é o primeiro a tirar o casaco. Doze minutos após a abertura do mercado . O primeiro a verter uma gota de suor. Um “hedge fund” promete um retorno brutal . O risco é imenso.

Hesita. Tem medo

Nervosos os outros corretores gritam as ordens ao telefone e esmagam com vigor os teclados. Para eles o momento de incerteza é inexistente. São melhores, vão ficar.

O dedo de Leonardo não dá a ordem.

É o primeiro da sala a dirigir-se, apressado, aos lavabos. Demora mais tempo do que o costume a regressar. Os olhos dos outros especuladores entrecruzam-se. Sabem que houve algo para lá do espelho

De facto Leonardo, seguidamente à soltura do pânico , chorou sobre a linha .Achou o facto inaceitável . Reforçou a carga. Durante a lavagem dos olhos congestionados e do rosto ,onde a dormência reforçara a impavidez requerida às transações de risco, lembrou-se de rezar. Ao princípio a ideia incomodou-o de tal forma que procurou o frasco da solução alcoólica que imuniza dos vírus e dos medos. Lembrou-se de Fátima mas não sabia nenhuma reza. Santo António e São João eram também ausências no seu oratório. Então Leonardo compôs a gravata e voltou à secretária entoando entre dentes o único credo que dizia seu. Entre os lábios anestesiados a ladainha:

– Faz-me rico , Faz-me rico, Faz-me Rico. Santa Maria , Mãe de Deus , enche-me de dinheiro.

Como se fosse um ato divino recompensador da sua devoção o seu olhar , agora esbugalhado entre as batidas de coração de alazão, tombou sobre uma aplicação quase sem atividade. Uma procura desesperada de financiamento por parte da Fundação das Aparições Marianas. Um lixo de terceira categoria financeira que permanecia imóvel e sem qualquer brilho que o levasse a figurar em qualquer rodapé noticioso. Um papel de cêntimos com uma imensidão bíblica de títulos disponíveis .
Perante o espanto do mercado Leonardo lançou uma oferta de aquisição a uma larga parcela do capital social. Outros investidores captaram o seu movimento e, por cautela, lançaram aquisições zelosas de garantir o rápido retorno no caso de Leonardo ter recebido alguma dica de um analista confidente.

E foi então, perante o espanto das praças financeiras, rodopiando vertiginosamente nos cabeçalhos e abrindo noticiários por todo o globo que , em pleno centro do quadrado dourado da City , não sobre uma azinheira mas no topo de um outdoor de última geração de uma conhecida marca de refrigerantes ; não perante o olhar ranhoso de três pastores analfabetos mas perante os olhares esbugalhados dos corretores que surgiu , brilhando como outrora , a figura de Nossa Senhora de Fátima.

E no trade disse-se Hossana , magos da finança em fatos de fazenda de três peças caíram sobre os joelhos e , na ausência de um rosário no seu espólio , empunharam carteiras da mais pura pele onde a opulência das notas de muitos cifrões debatia-se por uma melhor visão da aparição com os cantos carcomidos pela cocaína de cartões American Express de face platinada.

Leonardo soube então que estava rico .

O suor foi engolido perante o grito de vitória que acompanhava o disparo da valorização da Fundação das Aparições Marianas. Um casino insano , um jackpot maná dos céus . Tal era o rodopio dos dígitos no seu ecrã que Leonardo se urinou de emoção. Sobre as suas espáduas tombavam as palmadas daqueles que até há pouco o excomungavam da tribo dos eleitos . Ao canto da sala a rolha de uma garrafa de champanhe lançou o seu estalido seco, alguém disse Aleluia. Do claustro de mármore e cabedal do conselho de administração o patriarca desceu e encafuou nos lábios ainda dormentes de Leonardo um volumoso cubano.

Lá fora , perante milhares de câmaras e transmissões ao vivo para toda a rede ,a impávida senhora flutuava com o seu santo semblante esboçando um ligeiro sorriso. A mão que afagou o messias no seu ventre sagrado revelou-se ,mas , contrariamente à expectativa de uma bênção ao sagrado mundo da finança , empunhou serenamente a santíssima figura do seu dedo médio e desvaneceu-se em fumo.

O silêncio durou alguns segundos. Um pasmo global que calou um planeta onde há tanto tempo não aconteciam milagres.
Leonardo estremeceu , antevendo algo de horrendo.

As más novas vieram em tempo real do outro lado do Atlântico , pelas oito horas e trinta da costa leste um mártir chamado Amir correu envolto em C4 pelos corredores de Wall Street , infrutíferos os disparos da segurança .No centro da sala de operações ,Amir disse algo ao seu deus e detonou.
Leonardo tombou no chão , espezinhado pela azáfama, babel de transações ,o delírio fanático dos gritos de “Vende , Vende, Vende “ .
Ainda não tinha vertido a primeira lágrima quando uma mão rude lhe arrancou das beiças o Gran Corona que ardia como um círio de um milagre já esquecido.

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