Frinchas

– Quanto ?

Uma mão passa pelo vidro entreaberto. Punho fechado , lá dentro cinco, pacotes bem aviados . A nota de cinquenta é recolhida para o bolso . O passo gingão de volta ao passeio , sempre a olhar , a controlar o movimento . Em seu redor outros olhos , a sua tribo , a sua crew , os niggaz do bairro. Sempre a aviar quartas e meias , sempre a fazer escoar o produto de outros niggaz que tem armas grandes e carros rápidos.

Outro carro , mais um lixivia e a sua namorada boa. Quanto ?

Duas .

Voltarão no próximo fim de semana, depois dia sim dia não . Depois , depois chamam-se clientes. Enquanto houver dinheiro para trazer alvura ao espelho , uma bolinha que arde no cachimbo movido a amoníaco , até lá tudo bem. Se faltar dinheiro o crédito é desconhecido. Por vezes , um dos grandes traficantes gosta das pernas da compradora que nada mais tem para dar que o esgaçar de si num sofá sujo , a batida do corpo contra a sua fome de produto , arfar prazer por uma dose grátis. E na rua os putos continuam a traficar. Sempre a rodar , os carros , matriculas em continuo desfile pelo bairro, ao fundo de cada lado da avenida há outros putos , telefones alerta , olhos abertos . À espera da bófia que raramente aparece.
Não se passa nada. Sempre a fluir. O traficante que lhes dá os pacotes diz sempre :

– Os clientes são todos tão negros como nós. Com eles nunca se passa nada . Nunca

A ordem tem calibre quarenta e cinco que recorda os nomes de outros que já nada mais são que tags nos muros. Aniquilados com um disparo á queima-roupa numa esquina escura , a justiça para quem açambarca produto para dar no cachimbo , preço de quem fila um carro de quem quer comprar o bom pó . Quem tem miolos segue a batida do bairro , rola pelo passeio , entre as frinchas das janelas de carros apressados faz negócio.

As roupas largas ocultam corpos magros e ferro com bala na câmara, por vezes no asfalto existe drama. Alguém muito aceso pela baforada sai com uma arma na mão . Diz que é o pior filho da puta , dispara para o ar e os fregueses afastam-se assustados. Então tocam os telefones dos putos para os apartamentos barricados entre o labirinto da habitação social e da barraca ainda não demolida . Os telefones dizem ,

Problema.

A voz que já engatilha a pistola metralhadora diz – Baza – e os putos correm , para os contentores e para os baldios. Ao fundo da avenida surge o carro que traz alguém dependurado na janela. O louco do crack encena um gesto lento em direção aos máximos que o encadeiam. A sua mão trémula é escudo débil para a saraivada de balas que o abate como um cão. O atirador escarra-lhe no cadáver e poucos minutos depois o corpo rebola para o fundo de um esgoto a céu aberto.

O alcatrão ganha pouco a pouco o seu aspeto normal quando , um a um , os rodados dos carros calcorreiam de novo a avenida e param junto aos passeios. Nos seus porta luvas os pacotes , entre as frinchas entreabertas os sussurros da quantidade de dose. Partem de cabeça cheia levando nas estrias dos seus pneus o sangue fresco de mais um que se tornou um tag esquecido nos muros .

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