Downsizing – III – Nervos

Foi marcada para hoje a tão temida reunião.

Chefe de Área, Gestores de Produto, até o Coordenador Geral de Linha foram chamados ao escritório do último andar onde os novos senhores deste feudo se entrincheiraram. A protege-los uma secretária de ar frio e dois gorilas que apareceram a substituir o Cruz e o Paixão da segurança.

Estamos cá todos . Entre a galhofa habitual trocamos olhares nervosos. O Dias, que tem um cancro,  é o primeiro a ousar quebrar o silêncio. Fá-lo em tom de gracejo:

– Homens à beira de um ataque de nervos !

Esta frase tão corriqueira quebra a esforçada serenidade que tentávamos ostentar. Muitos indicadores aliviam simultaneamente a forca da gravata enquanto procurávamos nos bolsos os Marlboros, os Sg’s e o Português Suave sem filtro .No entanto há muitos que deixaram de fumar , alguns ,mais recentes  vasculham os bolsos em busca da Nicorette ou pressionam o ombro rogando mais nicotina ao adesivo.

Não tenho coragem para falar, encafuo os olhos no jornal e ,com olhos fixos nas tabelas  de resultados da 3ªdivisão, ouço aquele voz .O Dias , um homem que sabe que a vida já não tem muito tempo para ele, perguntar numa vozinha nervosa :

– Alguém já sabe alguns nomes ? Viram lá o meu ??

Que patético, um gajo que tem o cancro a roer-lhe as entranhas apavorado pela ideia de perder o emprego. O que fará um homem querer trabalhar até morrer ?

Provavelmente a morte virá mais rápida, assim, sem nada para fazer, longe das almoçaradas e das longas viagens noite dentro pela IP5 ouvindo Armstrong.. Provavelmente, se for despedido, ficará simplesmente sentado na sala à espera do dia. Deixando que o bicho o roa todo com muito maior velocidade. Afinal qual será a piada de passar os dias sentado a ver a porcaria da televisão ? E a sentir a urina que não se segura a encharcar as calças de um pijama de vergonha.

De um momento para o outro. Começam todos a falar ao mesmo tempo, uns confiantes de não serem dos eleitos para as bichas do Desemprego ali ao pé da Estação da  Amadora. Outros escondem-se nos “Não percebo nada disto “ e “ É Pá, Não sei “ .Um medo do amanhã que já não é suposto ser um sentimento para indivíduos da nossa idade.

Fizeram-nos acreditar que os riscos haviam cessado, e nós  deixamos crescer gorduras de crédito, deram-nos muitos cartões de banda magnética que operavam milagres aos olhos das mulheres pobres que conhecíamos nos  consultórios de província. E agora.. Tchau!

. Também sinto um grande medo, junto-me ao grupo dos mais cagados e gaguejo um “ Não sei “ sumido.

A ideia da bicha de desemprego na segurança social da Amadora. Era ali que estaria ,um dia destes, se o pior acontecesse. Por momentos atravessou-me a ideia de como devem abençoar os empregos curtos  que tem aqueles que avistam essas filas .Esmagados uns contra os outros no comboio das 8.02. Desviam-se olhares . No intercâmbio de hálitos de galão e bocejos ,todos notam  que  há cada vez mais senhores de aspecto distinto lá fora. À espera da senha

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